Livre-arbítrio, Providência e Soberania na vida e obra de C.S.Lewis

Livre-arbítrio, Providência e Soberania na vida e obra de C.S.Lewis

“Ele [C.S.Lewis] era centrado em Cristo, um cristão de tendência da grande tradição, cuja estatura, uma geração após sua morte, parece maior do que qualquer um jamais pensou enquanto ele ainda estava vivo, e cujos escritos cristãos são agora vistos como tendo status de clássicos… Eu duvido que alguém tenha conseguido compreendê-lo completamente”.                – John Stott

“Acredito que muitos que acham que nada acontece quando sentam ou se ajoelham com um livro devocional nas mãos achariam que o coração canta espontaneamente enquanto estão trilhando o árduo caminho da teologia.”                            – C.S.Lewis.

 

 Em 13 de novembro de 354, nascia em Tagaste um dos mais imponentes personagens da era cristã, o pensador que marcou a passagem da tradição patrística para a medieval, Agostinho de Hipona, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Cerca  de quatro anos antes nascia na Britânia seu principal oponente teológico,  o monge ascético Pelágio, um dos principais mestres da moral cristã do seu tempo. Esses dois gigantes, Agostinho e Pelágio, travaram o mais importante debate a respeito do livre-arbitrio e da graça de Deus. Enquanto Pelágio defendia que a salvação poderia ser alcançada por nossos próprios esforços, através do livre-arbitrio, Agostinho argumentava que nossa salvação depende necessariamente de Deus e da sua soberana graça. Os concílios eclesiásticos deram a vitória a Agostinho, mas, por incrivel que pareça, quase toda a Idade Média se mostrou semi-pelagiana. O debate voltou a ganhar visibilidade em uma nāo menos acalorada disputa no século 15, dessa vez entre o então monge agostiniano Martinho Lutero e o já famoso doutor da Igreja Herasmo de Hoterdan, o tema do debate era, uma vez mais, soberania e livre arbítrio. Lutero defendia “A justificação somente pela fé”, já Erasmo, tal como Pelágio,  atribuia muito poder ao nosso livre arbítrio, defendendo que depende também dos méritos a nossa salvação.  O duelo marcou a divisão da Igreja entre protestantes e católicos e mais uma vez acontece uma transição histórica, da Idade Média para a Moderna.

 A discussão parece nunca ter chegado ao fim e os gigantes irão continuar duelando, no entanto, no século XX ouvimos uma voz menos clerical, mas não menos lúcida.

 Em 29 de Novembro de 1898 nascia em Belfast, na Irlanda do norte, Clive Staples Lewis, filho de Albert J.Lewis (1863-1929) e Florence Augusta Hamilton (1862-1908). Lewis veio a se tornar um dos maiores escritores do século passado, seu talento tornou-se evidente ainda na infância, na casa de seus pais Lewis podia encontrar pilhas e mais pilhas de livros em quase todos os cômodos, foi o que lhe permitiu o encontro com um universo sem fim de escritores. Toda essa variada literatura formaram em Lewis um pensador cuja visão de mundo encontra poucos paralelos na história. Os filósofos gregos lhe deram a frieza e a precisão do argumento bem articulado; os medievais, uma arguta e penetrada  imaginação,  talvez uma das mais brilhantes do século XX; os grandes romancistas como Shakespeare lhe incutiram uma criatividade poucas vezes vista.
 Seu futuro já era de se esperar, tornou-se um notável erudito em literatura, lecionando nas universidades de Oxford e, mais tarde, Cambridge. Em 1930 converteu-se do ateísmo ao teísmo e deste ao cristianismo, ganhando notoriedade com a publicação de diversos livros e artigos na área da crítica literária e teologia, além de emblemáticos romances como a Trilogia Cósmica e O Grande Abismo que, além de serem histórias fantásticas, refletem com bastante expressão seus conceitos teológicos – isso para não mencionar as famosas Crônicas de Nárnia no gênero infantil. Lewis faleceu no ano de 1963, deixando um vasto legado literário. Desde sua morte até os dias atuais doutores de diferentes partes do mundo debruçam-se sobre suas obras no anseio de acompanhar o raciocínio do mestre. Neste breve texto – na condição de admiradores e não de doutores – iremos analisar a importância de toda a sua erudição literária e filosófica para a teologia. Recuperando o equilíbrio epistemológico de Lewis e retornando à antiga discussão sobre as doutrinas do Livre-arbitrio, Providência e Soberania Divina e de que modo se deve harmoniza-las. No entanto, antes de se passar ao conteudo propriamente dito, há pelo menos uma advertência a ser feita. Queria deixar bem claro que eu mesmo estou bastante consciente de que Lewis está muito mais pra crítica literária do que pra teologia , fica evidente que nesta área do conhecimento poderíamos usar outros nomes de muito maior expressão teológica, como Agostinho ou Tomás de Aquino. No entanto, dei a preferência a C.S.Lewis e isso, assim espero, é fácil de explicar. Quando Lewis se tornou cristão já era um literato formado, com graduações em inglês, história antiga e filosofia, além do que já lecionava na prestigiosa  Oxford. Mas foi somente a partir da sua conversão ao cristianismo que tudo o que ele aprendera começou a aganhar vida, foi o que mais tarde ele chamou de “reavivamento intelectual”, era a passagem para além da sua própria personalidade.

  Dessa experiência em diante Lewis nāo abdicou do acumulo de suas informações, mas aos poucos todas elas foram se harmonizando e formando um todo literalmente fantástico, a descoberta da teologia cristã foi para Lewis, em suas próprias palavras, “o despertar de um sonho”. Essa foi a transição de um escritor secular quase anônimo a um verdadeiro gigante da apologética cristã, cujo tamanho da compreensão do que é de fato o cristianismo o tornou um dos autores cristãos de comovisāo mais ampla dos últimos tempos. Acho que, por esse motivo, pode ser uma boa darmos uma olhadela em suas opiniões.

 
O Livre-arbítrio como argumento apologético e The Great Divorce: no tempo e fora do tempo



 “O  mal  moral  tem  sua  origem  no  livre-arbítrio  de nossa  vontade.’’                             – Agostinho, Sobre o  Livre-arbítrio.
“Liberdade: o dom por meio do qual nos assemelhamos mais ao nosso Criador e somos nós mesmos partes da realidade eterna. Entretanto você só pode vê-la pelas lentes do tempo […].” C.S.Lewis, The Great Divorce.

“[…]Mas a natureza eterna desse ser vivo não podia ser atribuída em toda a sua plenitude ao que é engendrado. Então, pensou em compor uma imagem móbil da eternidade, e, ao mesmo tempo em que organizou o céu, fez da eternidade que perdura na unidade essa imagem eterna que se movimenta de acordo com o número e a que chamamos tempo.”                         -Platão, Timeu.

Dizem-nos que falar sobre  livre-arbítrio é sempre se arriscar a ser polêmico ou desnecessário. Polêmico até posso admitir, mas desnecessário jamais. A matéria é de interesse totalmente prático, afinal todos nós fazemos distinção ética do que é certo e do que é errado, e desse ponto de vista os seres humanos são, não sem motivos, classificados como intelectual e moralmente responsáveis diante de suas ações. No entanto, essa perspectiva parece incluir a existência do livre-arbitrio como indispensável à natureza. Mas há muitas controvérsias dentro da filosofia, da metafísica e da teologia que parecem por em dúvida essa indispensabilidade. Como nosso assunto é teologia na obra de C.S.Lewis, vamos abordar a controvérsia dentro dos limites teológicos. O grande desafio que sempre se ergueu aos teólogos foi o de conciliar o conceito de liberdade com a clássica doutrina da onipotência e soberania divina,  a harmonia dessas doutrinas normalmente resulta em uma grande complicação: o problema do sofrimento.
  Usarmos C.S.Lewis é uma boa oportunidade de vermos pelas lentes de alguém que começou a desenvolver seus pensamentos sobre o livre-arbítrio a partir de suas experiências com o sofrimento que começaram na sua mais tenra infância. 

Em 23 de Agosto de 1908 morre Florence Augusta Lewis. A abrupta perda da mãe para o câncer torna a infância dos irmãos Lewis um tanto dolorosa, acrescenta-se a isso o temperamento um tanto ruim do pai Albert e uma deficiência na mão do ainda muito novo Jack – modo como C.S.Lewis era conhecido entre parentes e amigos. A dor da perda e o temperamento ruim do pai – agravado pela morte da esposa – tornam-se fator preponderante para o abandono da religião cristã na qual foi criado C.S.Lewis, mais tarde a leitura de escritores materialistas foi apenas uma fagulha em uma lenha que já estava a muito tempo incendiada. Anos depois, em seu caminho de volta ao cristianismo, uma das suas primeiras publicações foi justamente um livro cujo título era: O Problema do Sofrimento. 

  Nele, Lewis lida com o problema de conciliar um Deus bom e todo poderoso com a existência do sofrimento, afinal, por que um Deus bom e soberano permitiria a dor de suas criaturas?

 A resposta de Lewis a essa pergunta é que o sofrimento não é causado diretamente por Deus – apesar de ser usado por Ele – mas por suas criaturas dotadas de livre-arbítrio. O argumento de Lewis – levando em consideração a doutrina da queda- distingue:
1) O bem simples que vem de Deus;
2) O mal simples produzido por criaturas rebeldes;
3) A exploração do mal por parte de Deus, para seu propósito redentor, que produz
4) O bem complexo para o qual contribuem o sofrimento aceito e o pecado de que nos arrependemos.’1
  É claro que os amplos argumentos de Lewis a respeito do sofrimento não poderiam caber em um tão pequeno texto, nem é a minha intenção. Apenas pretendo deixar claro ao leitor que o livre-arbítrio na obra de Lewis normalmente surge nesse contexto apologético.  

Além do que, o assunto é  sem dúvida parte fundamental de seu pensamento, sua mente em termos teológicos pode chegar a surpreender muita gente que espera encontrar em Lewis mais um cristão liberal.  O livre-arbítrio em sua obra ganha contornos bem ortodoxos. Embora ele admita livre-arbítrio depois da queda – diferente de como pensavam os reformadores no século 16 – em O Problema do Sofrimento ele dá uma extraordinária contribuição ao diferenciar o livre-arbítrio do primeiro homem e a liberdade da posteridade. Com toda a sua fantástica capacidade imaginativa Lewis infere do relato de Gênesis e da tradição patrística que o homem paradisíaco não só possuía plena autoridade sobre as feras, mas sobre a sua mente e tudo o mais que lhe dizia respeito, de fato, sobre o próprio organismo, plenamente de acordo com Tertuliano,  segundo o qual, como resultado do pecado, “todo o nosso ser havia sido alterado, deixando sua saúde original e caindo em um estado de rebelião contra o criador” ‘2 . O primeiro homem seria, pois, uma espécie própria que entrou em extinção com o advento da Queda, deste modo, ele escreve: “Assim, o espírito humano, de senhor da natureza humana passou a simples hóspede em sua própria casa, ou até mesmo um prisioneiro” ‘3. Essa distinção de Lewis mostra com clareza sua proximidade com o pensamento tradicional a respeito do pecado e bastante afinidade mesmo com Lutero e sua ideia de livre-agência. Para Lutero o homem se torna, depois da Queda, escravo; para Lewis, prisioneiro. Não há diferença, pois, em que os dois admitem uma vontade escrava ou aprisionada – embora Lewis tenha sido enfático ao não concordar com a ideia de depravação total defendida pelos calvinistas ‘4.
 Nota-se, portanto, como já fora dito, que o livre-arbítrio na obra de Lewis quase sempre surge como argumento apologético, seja pra dar solução ao problema do sofrimento, seja para não fazer com que, no final das contas, Deus seja acusado de criar o mal. Em suas palavras:” A doutrina da Queda pelo livre-arbítrio afirma que o mal gera o combustível ou a matéria-prima para o segundo e mais complexo tipo de bem. O mal não é uma contribuição de Deus, mas do homem.” ‘5.
Além disso, o pensamento de Lewis acerca da liberdade também lança fora o perigo do fatalismo, o problema da origem do pecado e a dificuldade de se entender as passagens bíblicas acerca da responsabilidade do homem. Mesmo que não concordemos com Lewis, devemos admitir que esse argumento foi usado pela maioria dos Pais da Igreja na tarefa apologética. No entanto, não se pode confundir esse pensamento acerca do árbitro com o de Pelágio ou Erasmo, que o relacionavam quase sempre a termos soteriológicos. Não temos em C.S.Lewis mais um humanista preocupado em defender salvação por méritos, mas uma mente incansável em defender a fé que é comum a todos, o cristianismo puro e simples.
                              ***
Em The Great Divorce, no entanto, o tema é abordado em um contexto mais doutrinário, além de filosófico. Nesta obra C.S.Lewis se vale uma vez mais de seu incomparável talento para fábulas e alegorias.

 A trama se passa em um sonho, aonde o narrador-escritor se vê em uma viagem inacreditável, atravessando Céu e Inferno. Nesta viagem inesperada C.S.Lewis encontra-se com George Mcdonald, pastor presbiteriano e escritor escocês do século XIX, que tornar-se seu guia, além de mestre. Juntos eles tiram conclusões significativas sobre tudo o que veem, em especial trataremos aqui do diálogo fictício elaborado por Lewis que encontra-se nos dois últimos capítulos deste mesmo livro. Ali Lewis desenvolve de forma bastante profunda o seu pensamento acerca da Liberdade e do Tempo e estabelece uma relação fundamental entre os dois temas. Lewis parte do pressuposto platônico de que Deus é eterno e nāo se condiciona ao tempo por Ele criado, dada as devidas diferenças, o mesmo ponto de vista foi abraçado tanto por Santo Agostinho como por São Tomás, e em Lewis os argumentos são lançados exatamente nesses fundamentos e suas conclusões a respeito de nossa liberdade devem ser vistos sob esse aspecto, ou seja, Deus é atemporal e nós não, logo as postulações feitas a partir do ponto de vista divino não são as mesmas que se enquadram em nosso limite de tempo e espaço.
 Portanto, o livre arbítrio e a soberania divina que antes eu disse serem parte conflitantes da filosofia e da teologia, ganham dentro desse panorama uma explicação plausível: para nós, que estamos no tempo e sujeito às suas peculiaridades, torna-se seguro de se dizer sobre a difícil questão da liberdade, mesmo com respeito a salvação ou condenação eterna: “A escolha dos caminhos está à sua frente. Não há nada restrito. Qualquer homem pode escolher a morte eterna e os que fizerem essa opção vão tê-la” ‘6. Isso, levando em consideração a nossa percepção temporal, nesse sentido, a Liberdade só pode ser vista ou percebida através do Tempo, que funciona como uma espécie de lente: “uma cena de momentos que se seguem uns aos outros e você, em cada momento, fazendo alguma escolha que poderia ter sido diferente”. Mas se formos abordar a coisa do ponto de vista de Deus e analisarmos doutrinas como a da Predestinação ou o Universalismo nos colocaremos, inevitavelmente, de um ponto de vista fora do tempo, perdendo assim o conhecimento da liberdade que temos por experiência. 
Boa parte das aparentes contradições da Bíblia em relação ao livre-arbítrio e a soberania são solucionadas se tão simplesmente levarmos em consideração que pelo menos duas perspectivas diferentes podem estar sendo empregadas, a de Deus que é atemporal e a do homem cuja vida se limita ao movimento dos números do nosso relógio, que possui apenas 24hs.

E toda discussão teológica que trate de Livre-arbítrio e Soberania, deve considerar a realidade experimental além da teológica. Filósofos e teólogos dissertam sobre coisas profundas que muitas vezes estão além da nossa compreensão, mas isso não quer dizer que negligenciam a verdade. Um pastor fala com propriedade da Soberania de Deus e o carpinteiro, sentado no banco da Igreja, sabe que é livre para fazer escolhas, ambos estão certos e Deus não deixou de ser Deus. No argumento de C.S.Lewis podemos compreender Livre-arbítrio e Predestinação sem precisar acender uma fogueira e procurar um herege, é tudo uma questão de percepção. Mas essas coisas devem ficar um pouco mais claras no próximo tópico.
 
 Um Deus Atemporal: os primeiros passos na doutrina da Providência 

“Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” Apocalipse: 01-08

“A folha pendente da árvore não cai, nem os dois pardais vendidos por um asse caem, nem qualquer outra coisa acontece sem a providência e a vontade de Deus, quer se considere isso um detalhe ou se permita como detalhe.”             – Luis Molina, Concórdia 4.53.3.17

“Se Deus dirigi realmente o curso dos acontecimentos, Ele então governa o movimento de cada átomo a cada momento. Nem um pardal cai por terra sem sua permissão.  A “naturalidade” dos eventos naturais não consiste, de alguma forma, em estar fora da providência de Deus, mas consiste em sua interligação mútua dentro de um espaço-tempo comum, de acordo com o padrão estabelecido das “leis”.”  – C.S.Lewis, Sobre as Providências.

 “Todo esse problema de predestinação, livre-arbítrio e mérito encontra-se na questão da providência.” – Ulrich Zuínglio 

   
A Bíblia diz que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, mas até que ponto podemos classificar a palavra ‘todas’?

  Nós sabemos que certamente se refere não só às coisas boas, mas também aos sofrimentos, as perdas e às dores, enfim, todas as coisas. Mas dentro de nossa perspectiva temporal em qual período ou tempo elas se organizam em nosso favor? Todas as coisas que nos cercam no nosso presente, ou também inclui o nosso passado e futuro?

  Todas essas perguntas e as respostas que delas devem vir pertencem à doutrina da providência e a melhor maneira de aborda-la do ponto de vista cristão é levando em consideração as passagens da Bíblia. As escrituras nos ensinam que Deus não está sujeito ao tempo e é sobre esse fundamento que C.S.Lewis constrói seus argumentos, eles podem  ser vistos no segundo apêndice do livro Milagres, sob o título: A respeito das providencias especiais; e no capítulo cinco de Cristianismo Puro e Simples.
 Como já dizia o reformador alemão Ulrich Zuínglio, boa parte do problema filosófico e teológico envolvendo o livre-arbítrio e a soberania encontra-se na questão da providência ‘8. A primeira coisa que deve nortear a nossa mente é que Ele, nosso Senhor, é o Alfa e o Ômega e tudo que provém dEle não se sujeita à nossa noção de espaço e tempo, na obra de Lewis nāo é diferente, ele nos ensina: “todos os eventos físicos e todos os atos humanos estão presentes para Ele num eterno Agora. […] Deus, neste sentido, não criou o universo há muito tempo, mas ele o cria neste minuto, a cada minuto.’’ 

 C.S.Lewis nos fornece uma imagem ainda mais didática. Imaginemos que eu encontre uma folha e nela uma linha preta ondulada que segue de uma extremidade à outra e que eu, deliberadamente, resolva escrever outras linhas – vermelha, por exemplo. Vamos imaginar então que a primeira linha, que já estava escrita, seja consciente. Mas ela não tem consciência ao longo de todo o seu trajeto, mas em cada ponto de seu percurso. Ela, de fato, movimenta-se da esquerda para a direita e retém o ponto A apenas como memória ao alcançar B, incapaz de tornar-se consciente de D até deixar C. Vamos atribuir a essa linha preta livre-arbítrio, de forma que foi ela mesmo que escolheu sua forma ondulada especial e a direção que está a seguir. Apesar de ela não saber o que fazer em F até deixar o ponto E, eu, que estou com o papel na mão e sei todo o seu percurso, escrevo as linhas vermelhas de modo a considerar todo o trajeto da linha preta, de forma que ela irá sempre encontrar com minhas linhas vermelhas ao longo de sua trajetória. Em resumidas palavras, essa é a forma como Lewis enxerga o cenário da atuaçāo da Providência, a linha preta representa uma criatura dotada de livre-arbítrio, as vermelhas os acontecimentos materiais e o autor do desenho representa Deus. É claro que o exemplo de Lewis seria mais real se o autor das linhas vermelhas também tivesse criado tanto o papel quanto o próprio padrão utilizado e, aliás, também deveríamos levar em conta outras centenas de milhares de linhas pretas e não uma apenas.    O conjunto de linhas pretas e o entrelaçamento com as linhas vermelhas deveriam formar um desenho artisticamente impressionante, de modo que, na composição do todo, as linhas pretas dependeriam da formação das linhas vermelhas. A liberdade de arbítrio previamente concebida pelo provedor das providências é, grosso modo, o cenário da atuaçāo divina.’9
 Mas essa é apenas uma imagem que nos introduz à doutrina propriamente dita. Aprendemos que as coisas que cooperam para o nosso bem emanam de Deus e não se limitam ao nosso ponto de vista do tempo.Uma grande parte de nossas orações, se forem devidamente analisadas, exigem uma intervenção de Deus que antecede não só o nosso ato de fé como muitas vezes o nosso próprio nascimento, noutras os fundamentos precisariam ser lançados antes da fundação do mundo. Embora numa sucessão temporal pareça impossível, para Deus, que olha da eternidade, tanto quem faz a oração quanto o milagre ao qual pede já estavam tão presentes na criação do mundo como estão agora e estarão daqui a um milhão de anos. Deste modo “ao meio-dia podemo-nos tornar causas parciais de um evento ocorrido às 10 da manhã” ’11.

A Providência funciona como mediadora entre o conceito que temos de liberdade e soberania justamente no ponto em que dela inferimos que Deus é atemporal e que intervém em nossas vidas de acordo com seus planos e propósitos. Suas intervenções chegam a nós em um determinado tempo, mas fluem dEle da eternidade. Poderíamos dizer que Ele conduz todas as coisas através de sua Providência para a realização de seus planos. Lembremos do exemplo das linhas pretas e vermelhas na composição de um desenho completo redigido com maestria. Nós continuamos livres e Ele soberano. É claro que nós já aprendemos que nossa liberdade tornou-se restrita pela nossa própria natureza corrompida e que mesmo C.S.Lewis admite que tornamo-nos escravo desta. E é precisamente por isso que a Soberania por meio da Providência precisa atuar. Falando em uma linguagem bíblica, se Deus não nos chamar, nós não iremos a Ele. Foi o que aconteceu particularmente na conversão de Lewis.
Se a doutrina da Providência permiti-nos segurança na oração, com respeito a obra redentora de Jesus Cristo, Lewis sentiu na pele que dela – a Providência por meio da Redenção – não podemos esperar a tão desejável “independência” de nossa vontade, qualquer segurança ou o mínimo de estabilidade. “Há armadilhas por toda a parte” ’12 diz Lewis em sua autobiografia. Foi muito provavelmente tendo esses pressupostos em mente que ele registrou em “Surpreendido pela Alegria” o modo como Deus usou o apologista cristão G.K.Chesterton na sua conversão: “Parece até que a Providência, ou uma causa segunda de uma espécie bem obscura, supera nossas inclinações quando decide aproximar duas mentes” ’13. Chesterton viria a se tornar peça fundamental no dramático processo da conversão de C.S.Lewis, mas esse assunto já faz parte do próximo tópico.
 
 Compelle Intrare: Surpreendido pela Soberania


“Dê-me graças [Ó Senhor] para fazer o que ordenas, e ordena-me a fazer o que tu queres! Ó santo Deus (…) quando teus mandamentos são obedecidos, é do Senhor que recebemos o poder de obedecê-los’’ – Santo Agostinho (Tagaste, 13 de novembro de 354 – Hipona, 28 de agosto de 430)
 “A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e sua coerção é nossa libertação.”       – C.S.Lewis, Surpreendido pela Alegria.”

Bom, neste momento iremos analisar, de uma forma mais especifica, como Lewis veio a acreditar em Jesus Cristo e de que forma isso se deu. Do ateísmo ao teísmo e deste ao cristianismo, em quais circunstancias se realizou aquilo que, para muitos, parecia impossível: a queda de um dos mais empedernidos ateus do século XX.
Desde a mais tenra infância Lewis nunca lidou muito bem com a ideia de qualquer autoridade que roubasse sua privacidade ou sua segurança, alguns de seus biógrafos relacionam isso ao relacionamento ruim que ele teve com o pai. Quando ainda era ateu, a ideia de um Deus pessoal, como ensinava o cristianismo, lhe causava desprezo, “nenhuma palavra do meu vocabulário despertava ódio mais profundo do que a palavra interferência”. O Antigo e o Novo Testamento “colocavam no centro o que a mim parecia ser um Intruso transcendental” ’14.
Lewis, de fato, ansiaria em se manter o mais longe possível dessa fé, não queria nada, de nenhuma espécie, roubando sua liberdade. Apesar de isso ser um motivo emocional e pessoal, Lewis fez de tudo para que seu intelecto também criasse anticorpos à essa crença, com a leitura de escritores materialistas ele, de fato, vinha conseguindo se manter em defesa durante um bom tempo. O que ele não contava é que, fizesse o que fizesse, quanto mais ele se aprofundava em suas áreas de pesquisa acadêmica – que incluíam história, filosofia, literatura inglesa e medieval – mais ele se deparava com escritores que, apesar de serem muito inteligentes, tinham um leve defeito, eram crentes. E todos os materialistas começaram a parecer meio “raquíticos” em comparação a autores cristãos como Dante e Milton, além dos mais contemporâneos como George Mcdonald e G.K. Chesterton. Lewis chegou mesmo a dizer, anos mais tarde, que “um jovem que deseja continuar sendo um ateu convicto jamais poderá ser suficientemente cauteloso quanto às suas leituras. Há armadilhas por toda parte.” ’15
O Deus que se apresentava, de forma bastante inconveniente, através das leituras de Lewis, também se manifestaria através de suas novas amizades na universidade de Oxford e por muitos outros meios. Foi nesta mesma universidade que Lewis viria a conhecer Owen Barfild que atacou com bastante contundência a incoerência lógica de seu ateísmo. Ao entrar para a Faculdade de Inglês no Magdalen College, em Oxford, Lewis conheceu mais dois cristãos, Hugo Dyson e J.R.R. Tolkien. Estes homens tornaram-se amigos íntimos dele e o influenciaram profundamente. Os tempos de incrédulo estavam chegando ao fim, Lewis se sentia exatamente como uma presa que se põe em desespero na fuga de seu predador natural, era um período que iria delinear uma grande transição. Uma verdadeira mudança de paradigmas estava prestes a acontecer, no período entre 1928 e 1931 duras e contundentes provas em favor da existência de Deus e da veracidade da Bíblia começavam a imergir de onde Lewis menos esperava, a presa estava prestes a ser alcançada, mas “antes de Deus fechar o cerco sobre mim”, relembrou Lewis em Surpreendido pela Alegria, “foi-me oferecido aquilo que hoje me parece um momento de escolha absolutamente livre. […] Senti, ali e então, que me era dada a possibilidade de escolha. Eu poderia abrir a porta ou deixá-la trancada; poderia tirar a carapaça ou conservá-la. […] Escolhi abrir, tirar a carapaça, afrouxar as rédeas. Digo “escolhi”, mas não me parecia realmente possível fazer o contrário.” ’16
É neste ponto paradoxal que desejava chegar, enfim a tênue linha que separa liberdade humana e soberania divina, uma divisória que necessariamente não existiu para Lewis. Até aqui acompanhamos alguns traços biograficos a partir de Surpreendido pela Alegria, mas antes de avançarmos no assunto veremos que em O Regresso do Peregrino soberania também é um tema corrente.  

Essa  foi a primeira publicação de Lewis depois de convertido, a trama descreve a busca de John – protagonista da saga alegórica- para chegar à ilha encantada, reflexo da busca do próprio Lewis “por uma experiência particular recorrente” que mais tarde ele veio a chamar de alegria. No caminho da ilha John encontra diferentes tipos de filosofias, a maioria delas afirmava que tal ilha, de fato, não existia. Outras afirmavam que existia, mas seria impossível, ou pouco recomendável, o caminho que leva até ela. John, no entanto, não podia conceber duas coisas: que a ilha, de fato, não existisse e que o Proprietário – alegoria de Deus -, do qual fugira a vida inteira, fosse real. Mas não havia mais saída. As alegorias da Razão, da Sabedoria e da história mostravam a John a ilusão de todas as filosofias que negavam a existência da Ilha e do Proprietário. Jhon reluta em acreditar, mas diante da incapacidade de continuar sua jornada com as próprias forças ele se inquieta cada vez mais e “na amargura de sua alma, ele olhou para cima novamente, dizendo: Ajuda, ajuda, eu quero ajuda!” e então ele percebe “eu estava orando!”[…] “Em apenas uma noite, o Proprietário – chame-o pelo nome que quiser – tinha voltado a fazer parte do seu mundo e  havia o ocupado, preenchendo-o plenamente, sem deixar livre um espaço se quer. (…) E todas as coisas apontavam para uma única palavra: Capturado.” ’17
A experiência de Lewis foi semelhante, ou melhor, idêntica. Sua conversão ao cristianismo não se deu de forma imediata, mas após muito relutar. A fuga de Lewis desse Ser transcendental que lhe roubava a privacidade foi um longo e dramático processo, uma fuga que teve um desfecho inevitável, bastante similar ao de Jhon: “Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi enfim […] admitindo que Deus era Deus, ajoelhei-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante dos convertidos de toda a Inglaterra.” Ele se auto descreveu como “o Filho Pródigo que afinal caminhava para casa com as próprias pernas. Mas quem é que pode respeitar de fato o Amor que abre os portões ao pródigo que é arrastado para dentro esperneando, lutando, ressentido e girando os olhos em torno, à procura de uma chance de fuga? As palavras compelle intrare, forçá-los a entrar, foram tão violentadas por homens impiedosos que chegamos estremecer diante delas; mas, entendidas de forma correta, determinam a profundidade da misericórdia divina. A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e sua coerção é nossa libertação.” ’18
 Como podemos ver, em suas duas auto biografias, Lewis tinha um conceito de soberania muito forte, mesmo Agostinho um dos maiores defensores da graça soberana se acautelou em usar a palavra coerção com referencia à ação de Deus em nossa conversão. Ele porém, tal como Agostinho, acreditava, em algum nível, na liberdade e no arbítrio do homem. Como ele entedia isso já foi dito no primeiro tópico desse texto, é tudo uma questão de percepção temporal. Ele nunca esteve disposto a fazer uma escolha entre o fatalismo e o humanismo. Como ele mesmo diria, nem o Norte e nem O Sul. Jack (como costumava ser chamado pelos amigos) estava ciente de um caminho em que a soberania e a liberdade se encontravam, tornando-se doutrinas diferente de um mesmo credo. Talvez ele visse essa aparente contradição entre teoria e pratica, como Ranson – o personagem principal de sua Trilogia Cósmica. 

Em Perelandra, Elwin Ranson se vê diante da responsabilidade de enfrentar o Não-Homem – aquele que instigava a Queda no Gênesis mitológico de Vênus. Ranson nota que enfrentar o Não-Homem lhe parecia literalmente impossível, mas de alguma forma ele sabia que iria ser feito. Isso já tinha acontecido antes com ele, e “o mesmo acontecia agora […] poderia implorar, chorar ou se rebelar, poderia amaldiçoar ou adorar, cantar como um mártir ou blasfemar como um demônio. Não fazia a menor diferença. […] O ato futuro já estava ali, fixo e inalterável, como se ele já o tivesse executado. […] Talvez fosse possível dizer que o poder da escolha tinha sido simplesmente afastado e substituído por um destino inflexível. Por outro lado, talvez se pudesse dizer que Ranson tinha sido libertado […] para uma liberdade inexpugnável. Por mais que se esforçasse, Ranson não conseguia ver nenhuma diferença entre essas duas formulações.” ’19
 Essa é provavelmente a forma como o próprio Lewis via o assunto. Ranson carregava muitos traços de seu criador. Talvez depois de convertido, experimentado e estudado nas doutrinas teológicas, ele enfim tenha chegado à mesma conclusão que seu personagem de ficção cientifica. Talvez Lewis pudesse dizer o mesmo de si próprio quando disse que para Ranson enfim “A predestinação e a liberdade eram aparentemente idênticas.” e que  “Ele já não conseguia ver o menor significado nos muitos argumentos que ouvira sobre o assunto.” ’20

Referências:
Sobre o Livre-arbítrio:
‘1- O Problema do Sofrimento, editora Vida. pg.126
‘2- Sobre os Espetáculos, 2. Ver  Justo González, Uma breve história das doutrinas cristãs, editora Hagnos, pg.116.
‘3- O Problema do Sofrimento, editora Vida. pg. 94
‘4- Ibid., pg 77. Aonde  se lê sobre a Depravação Total: “Não creio nessa doutrina”.
‘5- Ibid., pg 96
‘6- O Grande Abismo, editora Vida. pg.143
‘7- Ibid.
Sobre a Providência:
‘8- Ver Teologia dos Reformadores, pg.124
‘9- Sobre a Providência, editora Vida. pg.268-269.
’10- Ibid. pg. 270.
’11- Ibid. pg.272.
’12- Surpreendido pela Alegria, editora Ultimato.  pg. 171
’13- Ibid. pg. 170
Sobre a Soberania:
’14- Surpreendido pela Alegripe, editora Ultimato. pg.155
’15- Ibid. pg. 171
’16- Ibid. pg. 198-199
’17- O Regresso do Peregrino,Icthus Editorial. pg. 223-224/ 229-230
’18- Surpreendido pela Alegria, editora Ultimato. pg. 202-204
’19- Perelandra, Martins Fontes. pg.198
’20- Ibid. pg.199.

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A Nacionalidade Desconhecida de C.S.Lewis

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por William Estaquio

À medida que C. S. Lewis (1898–1963) e suas obras tornam-se mais conhecidos pelo mundo, por um público de notável diversidade etária, social e religiosa, torna-se também mais evidente um fato importante sobre o mesmo autor. Muito embora Lewis tenha nascido na Irlanda, em Belfast, e crescido na mesma cidade ou nas cercanias, no condado de Down (hoje, na Irlanda do Norte), sua nacionalidade permanece amplamente desconhecida ou obscurecida. À primeira vista, é grande a possibilidade de se pensar estar tratando de um autor inglês. Não é diferente com o professor J. R. R. Tolkien (1892–1973), conhecido pela extensa série de livros sobre a fictícia Terra-Média, dentre os quais destacando-se O Hobbit e O Senhor dos Anéis, que, muito embora tenha vivido a maior parte da vida na Inglaterra, e provindo de uma família de forte tradição inglesa, nasceu na África do Sul e ali viveu por algum tempo.

Tomemos uma obra que projetou a imagem de Lewis para fora das fronteiras da Grã-Bretanha. A versão hoje conhecida de Cristianismo Puro e Simples (diversas vezes citada como a obra religiosa mais influente do século 20) é, na verdade, uma versão editada do material resultante das quatro séries de palestras radiofônicas proferidas por Lewis durante a Segunda Guerra Mundial. Anteriores a esta versão final, foram publicados três folhetos separados, a partir de ligeiras edições das mesmas palestras: The Case for Christianity(em 1942), Christian Behaviour (em 1943) eBeyond Personality (em 1944). Estas publicações não satisfizeram Lewis, pois careciam, para ele, de maior clareza de expressão e de enfoque. Para os leitores, os três panfletos eram, na verdade, obras independentes, e não estágios de uma mesma argumentação entrelaçada. De fato, eu propriamente, na primeira ocasião em que descobri Beyond Personality, julguei tratar-se de uma obra separada de Lewis. Portanto, não é difícil imaginar a facilidade com que a mesma ideia foi concebida nos leitores da década de 1940. Além disso, uma das séries foi inteiramente omitida (e eis a razão por que havia apenas três folhetos). Lewis, então, passou a pensar em como poderia criar um único livro; um livro que desenvolvesse uma defesa coerente do cristianismo, unindo e vinculando, assim, todo o material por ele desenvolvido para suas quatro séries de palestras. O resultado foi a versão hoje conhecida deCristianismo Puro e Simples (de 1952), uma versão editada do material do tempo de guerra.

Pois bem, a fama de Lewis como apologista cresceu sobremaneira na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, muito embora seu sucesso neste campo tenha obscurecido outras conquistas consideráveis de sua vida acadêmica. Por exemplo: em dezembro de 1941, ele deu início a uma série de três palestras sobre os temas de O paraíso perdido, de John Milton. O circuito de conferências foi ministrado no University College, no País de Gales, e esta série foi por Lewis vista como um “ensaio preliminar” para um livro mais alentado. A obra ampliada, de fato, foi publicada em outubro de 1942 pela Oxford University Press, com o títuloA Preface to “Paradise Lost”. É um estudo clássico, e permanece em destaque nas listas de leituras sobre a obra-prima de Milton. O livro, que foi dedicado a Charles Williams (1886–1945), amigo querido de Lewis e também parte dos Inklings, foi por este apresentado como uma introdução daquela obra de Milton (primeiramente publicada em 1667) a leitores que poderiam considerá-la “afastadora, inacessível ou simplesmente incompreensível”. É, sem dúvidas, um de seus mais notáveis livros acadêmicos.

Todavia, o aspecto mais importante deste cenário é a forma com que a imagem de Lewis foi projetada por sua fama crescente. Ele não foi amplamente conhecido como um acadêmico ou apologista irlandês, e mesmo alguns irlandeses pareciam desconhecer sua “origem comum”. Alister McGrath, um dos mais recentes biógrafos de Lewis, observa que na época em que morou na Irlanda, na década de 1960, ele se recorda de que quando alguém, casualmente, referia-se a Lewis, estava se referindo a um escritor “inglês”. É verdade que não é atípico que pessoas radicadas fora de seu país natal passem a ter sua verdadeira nacionalidade esquecida ou desconhecida. É um fenômeno muito corriqueiro. Vê-se amiúde, por exemplo, atores conhecidos sobretudo por seus trabalhos com a indústria cinematográfica norte-americana que provieram, na verdade, de outros lugares do globo. Porém, à medida que prossegue-se em conhecer Lewis, pode ser neste encontrada uma profunda ligação com sua terra natal. Ele jamais perdeu de vista suas raízes irlandesas. Numa carta a Arthur Greeves, um amigo de longa data, em março de 1915, Lewis com carinho evocou suas recordações de Belfast. Ele recordou-se do “distante murmurar dos ‘estaleiros’, a grande extensão de Belfast Lough, Cave Hill Mountain e os pequenos vales, prados e colinas em volta da cidade”. A Irlanda de Lewis era muito mais que suas “suaves colinas”, muito embora sejam estas uma de suas marcas distintivas. Sua cultura possuía uma enorme paixão por histórias, o que se evidenciava em sua mitologia, nas narrativas históricas e em seu amor pela língua. No final da década de 1950, Lewis ainda se referia regularmente à Irlanda como sua “terra natal”, chamando-a de “meu país”. Chegou mesmo a optar por lá passar sua tardia lua-de-mel com Joy Davidman, em 1958. Lewis jamais esqueceu-se da beleza natural de sua terra natal, cujo ar suave e úmido havia ele inalado. A própria linguagem de Lewis repercutia suas origens. Ele usava com frequência, em suas correspondências, expressões ou gírias anglo-irlandesas derivadas do gaélico (a língua oficial da Irlanda). Muito embora a voz de Lewis, em suas palestras radiofônicas na década de 1940, possuísse traços típicos da cultura acadêmica de Oxford do seu tempo, sua pronúncia de algumas palavras ainda denunciava uma sutil influência de suas raízes de Belfast.

James Joyce (1882–1941) é um exemplo semelhante ao de Lewis. Joyce nasceu em Dublin, e é conhecido por ser um grande romancista, contista e poeta irlandês. Joyce viveu fora de seu país natal pela maior parte da vida adulta, mas é reconhecido que suas experiências irlandesas foram essenciais para sua obra, fornecendo-lhe toda a ambientação e boa parte de sua temática. Uma de suas obras mais conhecidas, de fato, é o volume de contos Dublinenses/Gente de Dublin (1914), que chegou a ser sugerido por Ernest Hemingway (1899–1961), certa vez, para um jovem escritor que lhe pedira sugestões de obras que a ele próprio, como iniciante na literatura, poderiam ser úteis. Hemingway elaborou, então, uma pequena lista com quatorze livros e mais duas curtas histórias para o jovem — dentre os quais Madame Bovary, de Gustave Flaubert, Ana Karenina e Guerra e Paz, de Leo Tolstoy, Os Irmãos Karamázov, de Fyodor Dostoyevsky, e O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brönte. O autor de Ulisses foi considerado por Ezra Pound como um dos mais eminentes poetas do imagismo, participando dos primórdios do modernismo poético em língua inglesa. Em contraste com C. S. Lewis, todavia, James Joyce é, ainda hoje, considerado um dos maiores nomes da literatura irlandesa, enquanto que aquele não possui nenhuma entrada nas 1.472 páginas do supostamente definitivoDictionary of Irish Literature (1996).

Uma questão importante, contudo, é que havia uma marcante distinção entre Lewis e outros conhecidos escritores irlandeses. Ao contrário de alguma parte deles, Lewis não descobrira sua inspiração literária nas questões políticas e culturais que giravam em torno da luta de seu país pela independência em relação à Inglaterra. Ele a descobrira, todavia, primariamente nas paisagens da Irlanda. Lewis nascera num contexto em que predominavam o ressentimento social e político, assim como exigências por mudanças. A Irlanda do Norte e a República da Irlanda eram ainda unidas, porém as tensões que provocariam esta divisão artificial da ilha eram muito evidentes. Certas informações são necessárias. A Irlanda é a segunda maior das Ilhas Britânicas (depois da Grã-Bretanha), a terceira maior na Europa e a vigésima no mundo. Politicamente, ela é dividida entre a República da Irlanda, cobrindo cinco-sextos da ilha, e a Irlanda do Norte (uma parte do Reino Unido), cobrindo a área restante e localizando-se no nordeste da ilha. Historicamente, a Irlanda Gaélica surgiu no século primeiro, durando até o início do século 17. A ilha foi cristianizada à partir do século quinto. Após a invasão dos normandos, no século 12, a Inglaterra reivindicou sua soberania sobre a Irlanda. Todavia, o governo inglês não se estendeu sobre toda a ilha senão a partir da conquista Tudor dos séculos 16 e 17. Isso levou a uma colonização por parte de ingleses e escoceses, provocando nos irlandeses desapossados um grande e profundo ressentimento social e político contra os invasores. Os colonizadores protestantes diferiam dos irlandeses católicos quanto à língua e religião. “Fazendas protestantes” se desenvolveram durante o século 17, sob a liderança de Oliver Cromwell, sendo como “ilhas protestantes num mar irlandês católico”. Nos anos 1690, um sistema de governo protestante inglês foi designado para materialmente desavantajar a maioria católica e os dissidentes protestantes, sendo estendido durante o século 18. Esta organização protestante estabeleceu-se, então, a partir da deposição da classe dominante irlandesa. Em 1801, com os Atos de União (ou a Lei da União), a Irlanda tornou-se parte do Reino Unido, sendo governada diretamente de Londres. Muito embora fossem uma minoria numérica, os protestantes, radicados nos condados de Down e Antrim, no norte, e na cidade industrial de Belfast, dominaram a vida cultural, econômica e política da Irlanda.

Isso, contudo, mudaria em breve. Na década de 1880, movimentos por um governo autônomo da Irlanda se desencadearam, sobretudo, por influência de Charles Steward Parnell (1846–1891) e outros, que chamaram tal governo de “Home Rule”. Na década de 1890, o nacionalismo irlandês começou a ganhar força. Uma sensação nova de identidade cultural irlandesa foi criada, injetando também nova energia no movimento pelo “Home Rule”. Um fato de muita importância foi que o movimento passou a considerar também a língua inglesa um agente de opressão cultural, o que resultou na fundação, em 1893, da Liga Gaélica, a fim de promover o estudo e uso da língua irlandesa. Também houve forte oposição a todas as formas de influência inglesa na Irlanda, inclusive jogos como o rúgbi e o críquete. Este clima, portanto, não deixou de afetar também a família de C. S. Lewis. Uma vez que a demanda por um governo nacional autônomo foi se fortalecendo e ganhando credibilidade, muitos protestantes sentiram-se ameaçados, temendo, além da erosão de seus privilégios, um confronto civil. Dessa forma, a comunidade protestante de Belfast, no início da década de 1900, era bastante insular, evitando contato social e profissional com seus vizinhos católicos onde isso fosse possível. De fato, o próprio irmão mais velho de C. S. Lewis, Warren, recordou-se mais tarde, numa biografia do irmão não publicada, que ele mesmo (Warren) jamais conversara com um católico de seu círculo social antes de ingressar no Royal Military College em Sandhurst, em 1914. Uma tendência hostil e segregacionista  para com os católicos foi por Lewis adquirida sendo ainda uma criança de peito. E, de fato, Alister McGrath também pontua que muitos consideravam Lewis, e ainda o consideram, alguém que se situa fora da verdadeira identidade cultural irlandesa devido às suas raízes na província protestante de Ulster (área que, hoje, corresponde aos condados da Irlanda do Norte, mais três condados hoje parte da República da Irlanda: Cavan, Donegal e Monagham).

As tensões e questões sociais e políticas, portanto, que rodeavam a vida de Lewis em seus primeiros anos, não serviram de grande inspiração para sua produção literária. O que realmente lhe serviu de inspiração foi a paisagem física da Irlanda. Esta foi, inquestionavelmente, uma das influências que moldaram a fértil imaginação de Lewis. A Irlanda, de fato, é também conhecida como a “Ilha Esmeralda”, exatamente por seus elevados níveis pluviométricos e suas névoas, o que lhe proporcionam um solo úmido e uma relva verde viçosa. E é certamente interessante que Lewis tenha transferido, mais tarde, a sensação de confinamento pela chuva que ele sentia em “Little Lea” (como chamavam a “Leeborough House”, casa para onde a família Lewis se mudou em 1905) a quatro criancinhas, presas na casa de um velho professor, incapazes de explorar o exterior por causa da “incessante chuva, tão densa quando se olhava pela janela que não se podia ver nem as montanhas e as florestas e nem mesmo o regato do jardim”. Talvez, e muito provavelmente, a casa do professor em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa tenha sido concebida com base em Little Lea.

Aquelas paisagens, todavia, como Lewis declarou, moldaram também a prosa e a poesia de muitos antes dele. Talvez, acima de tudo, o clássico de Edmund Spenser (1552–1599), The Faerie Queene, obra elisabetana que Lewis apresentava com frequência em suas aulas em Oxford e Cambridge. Para Lewis, essa obra clássica de “demandas e andanças e insaciáveis desejos” refletem claramente os muitos anos vividos por Spenser na Irlanda. Era impossível não perceber “o ar suave e úmido, a solidão, as vagas formas da colina” ou “os emocionantes crepúsculos” da Irlanda. Para Lewis, o período subsequente na vida de Spenser, agora na Inglaterra, o levou à perda de seu poder de imaginação. “Os muitos anos vividos na Irlanda”, escreveu ele, em sua obraStudies in Medieval and Renaissance Literature, “estão por trás da poesia superior de Spenser, e os poucos anos vividos na Inglaterra estão por trás de sua poesia inferior”.

Por fim, conclui-se que toda a familiar imaginação e a incrível produção literária, poética, e acadêmica de C. S. Lewis não podem ser separadas de suas origens irlandesas, que o marcaram de forma profunda e inexorável. “Os suaves contornos dos montes e das colinas” do condado de Down estão por trás de toda a sua experiência de perplexidade diante de algo indescritível e inalcançável, um anseio profundo por um objeto além do alcance. A projeção de Lewis como uma figura inglesa, embora resultado esperado de sua crescente popularidade e das associações naturais, embora imprecisas, como o ambiente acadêmico, cultural, religioso e social da Inglaterra do século 20, constitui-se de um impedimento inesperado para um maior alcance no entendimento de sua persona. Lewis foi alguém que foi inserido num ambiente estranho e hostil (ao menos para ao garotinho que, pela primeira vez, pisava em solo inglês, como descrito em sua auto-biografia Surpreendido pela Alegria), e talvez não imaginasse que ali faria ele sua vida. Muito provavelmente, jamais imaginara ele que, como um cidadão inglês, teria uma vida tão “romântica” e interessante, tão curiosa e inesperada, como as histórias que o entretinham no “velho lar”, o país natal. Lewis lutou na Primeira Guerra, tornou-se professor em Oxford, catedrático em Cambridge, conheceu Joy Davidman e viveu experiências felizes e singelas ao seu lado. Mas jamais fora o vínculo e ligação profundos rompidos. Para se entender Lewis, deve-se saber de suas origens. Sem a Ilha Esmeralda, porção enorme de sua obra se perde, e a influência que têm causado elas por mais de um século desaparece. Sua terra natal não lhe serviu de mero “lugar de nascimento”, mas de uma base encantadora para sua vida imaginativa sem par.

Referências Bibliográficas:

McGrath, Alister. A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia. São Paulo: Mundo Cristão, 2013.

Obras de C. S. Lewis:

A Preface to “Paradise Lost”. London: Oxford University Press, 1942.

Studies in Medieval and Renaissance Literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

The Collected Letters of C. S. Lewis. Edited by Walter Hooper. Vols. 1 & 2. San Francisco: HarperOne, 2004 e 2005.

Antony Flew fala de C.S.Lewis

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Texto por Agnon Fabiano:

Antony Flew, considerado o principal filósofo dos últimos cem anos, passou mais de cinquenta defendendo o ateísmo. Nesse período, ninguém conseguiu expor as teorias do ateísmo de forma tão completa, original e sistemática como ele fez. O nome de Flewpassou a ser associado ao moderno ateísmo em 1950, com o ensaio entitulado Theology and Falsification, que se tornou a publicação mais reimpressa do século XX. No entanto, ao continuar investigando o tema, ele reviu seus conceitos.

Flew, participou do Socratic Clube, um grupo que era, realmente, “o centro do que ainda havia de vida intelectual de Oxford no tempo de guerra. O clube era um fórum onde aconteciam acalorados debates entre ateístas e cristãos”. De 1942 a 1954, seu presidente foi C. S. Lewis. A exortação “devemos seguir o argumento até onde ele nos levar”, atribuída aSócrates, era o “brasão” do clube e foi citado porLewis na primeira edição do Socratic Digest.

Em seu livro “Deus existe”, Flew dá testemunho da coragem, da honestidade e da intelectualidade de C. S. Lewis. Diz ele que “é de fato um paradoxo que meu primeiro argumento em favor do ateísmo tenha sido originalmente apresentado em uma reunião do Socratic Club presidida por um dos maiores defensores do cristianismo do século passado, C. S. Lewis. [….] Lewisfoi, certamente, o mais eficiente defensor do cristianismo da segunda metade do século XX. [….] Muitos dos maiores ateístas entraram em conflito comLewis e seus companheiros cristãos”.

Flew sistematizou a desenvolveu a maior parte dos fundamentos do ateísmo. Por essa razão, atualmente ele sofre duras críticas por parte dos ateus, pelo fato de ter “revisto seus conceitos” e, hoje, declarar que existe um Deus.

Fui criado para outro mundo

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Texto de Agnon Fabiano.

C. S Lewis
O Peso de Glória

“Se descubro em mim um dese­jo que nenhuma experiência deste mundo pode satis­fazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.” (CSL)

Quase toda a educação procura silenciar essa voz tímida e persistente dentro de nós: quase todas as filosofias dos nossos tempos foram elaboradas para convencer-nos de que o bem do homem encontra-se nesta terra. Contudo, é curioso como certas filosofias de progresso ou evolução criativa acabem por atestar, relutantemente, que o nosso verdadeiro alvo esteja em outro lugar.

Note a maneira como pretendem convencê-lo de que a terra é seu lar. Começam tentando persuadi-lo de que a terra pode transformar-se em céu, driblando assim a nossa sensação de exílio. Depois dizem que esse feliz acontecimento situa-se num futuro ainda muito distante, driblando assim o nosso conhecimento de que nossa pátria não está presente, aqui e agora. Finalmente, para que o nosso anseio por alguma coisa transtemporal não nos acorde, estragando tudo, valem-se da retórica à disposição, para conservar bem distante da nossa mente o pensamento de que, ainda que a felicidade que nos prometem pudesse ser uma realidade na terra, cada geração, inclusive a última de todas, a perderia na morte, e toda sua história seria nada, deixaria até de ser história, para todo o sempre. Assim, justifica-se todo o absurdo que Shaw põe no discurso final de Lilith, bem como a teoria de Bergman, afirmando que o élan vital é capaz de superar todos os obstáculos, talvez até a morte — como se pudéssemos crer que qualquer desenvolvimento social ou biológico em nosso planeta pudesse protelar a senilidade do sol ou anular a segunda lei da termodinâmica.