A Dádiva de um Encontro: Amizade e Eros; Lewis e Joy.

Dedicado aos recém casados Rev. Dr. Daniel R. Cabral e Dra. Gabriele Greggersen .

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.” (1 Coríntios 13: 01)
“Assim é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.” (Platão, O Banquete)

Em Quatro Amores C.S.Lewis faz uma bela distinção e uma das melhores abordagens da Afeição, da Amizade, Eros e Caridade. Nosso trabalho, a nível de introdução, é estabelecer os limites de proximidade, ou ainda, se deve haver realmente limites, entre dois desses amores: Eros e Amizade. Lewis foi sempre muito cauteloso em tratar desse tema que nos é tão comum, suspeito que a causa disso seja que a mera tentativa de descrever a intensidade que pode, em alguns poucos casos, diga-se de passagem, haver entre esses dois amores não é só difícil, mas comprometedor. A amizade deve ser de tal modo valorizada que possa receber a honra de sua grandeza sem a intervenção de Eros. O contrário disso já acontece com frequência em tempos de demasiado romantismo hollywoodiano, mas não deveria, de fato, acontecer. Quem leu a mitologia de J.R.R.Tolkien sabe do vigor que Eros dá a Beren e Luthien no resgate, aparentemente impossível, das Silmarilion. Mas quem não ficou só nos tempos primitivos da Idade Média ou pode acompanhar a super produção de O Senhor dos Anéis, sabe que o paralelo perfeito à essa aparente impossibilidade encontra-se em Frodo Bolseiro e Sam Wise, com duas únicas diferenças, não se tratava de um resgate, mas de uma incumbência de destruição, e não fora Eros o amor que lhes suscitou a força necessária, mas a Amizade; a mesma que fez com que Olga saísse em busca de Policarpo Quaresma na tentativa de salvá-lo da morte na triste história de Lima Barreto; ou ainda a que fez Jonatas amar a Davi e livrá-lo da perseguição de Saul, legando-nos uma das mais belas histórias de amizade já registradas. Podemos ter plena certeza de que às vezes nossas amizades são mais intensas do que nossos outros amores, obviamente não há perigo em afirmar isso, nosso Senhor disse ser nosso Pai, mas também disse ser o nosso amigo (João 15:14).

Há ainda um outro tipo de perigo, a idéia de que todo tipo de amor é, por si só, bom. Pretendo falar mais sobre isso no final deste artigo, mas não dá nem para começar se não estivermos conscientes do perigo em que estamos se todos os nossos amores não dependerem daquela experiência extraordinária de amor que nós chamamos graça e que só a achamos em Cristo Jesus. O único amor sobre o qual podemos solidificar nossa esperança, alegria e paz, é aquele que, para usar as palavras de Paulo, “não passa” (1 Coríntios 13:13).

Feita as devidas observações, passo agora à pergunta principal: pode Amizade conviver junto com Eros?
Antes de fornecer uma resposta, rápida e objetiva, quero conduzi-los à uma história que certamente deve esclarecer um pouco mais as coisas. Antes eu disse que Lewis não compôs algo como um capítulo dedicado à relação entre Amizade e Eros, mas é preciso acrescentar que sua própria biografia nos fornece esse conteúdo. A partir de agora vamos penetrar na emocionante história de amor vivida entre Joy Davidman e C.S.Lewis.

Em Os Quatro Amores Lewis nos lembra da pouca probabilidade de um homem tornar-se amigo de uma mulher, principalmente pelo fato de o gosto dos dois sexos serem, na maioria das vezes, absolutamente diferentes. Mas isso tem se tornado uma realidade cada vez mais restrita ao passado. Em tempos em que a mulher se torna cada dia mais participativa na sociedade, e de forma prática, torna-se mais comum ambos os sexos compartilharem preferências políticas, ambientais, trabalhistas, religiosas e etc. Mesmo na época de Lewis essa mudança já era evidente para o autor. Entretanto, com algumas exceções, o círculo de amigos de Lewis geralmente era composto por homens. Além disso, Lewis sempre fora bastante receoso em sua relação com mulheres que ultrapassa-se os limites da amizade. No capítulo em que ele fala sobre Caridade, descreve uma característica própria de sua personalidade da seguinte forma:

“Sou uma criatura que põe a segurança em primeiro lugar. De todos os argumentos contra o amor, nenhum seduz tão fortemente minha natureza quanto esse: “Cuidado! Isso pode fazê-lo sofrer!”

Talvez tenha sido exatamente esse tipo de pensamento a passar pela sua cabeça quando conheceu Joy Davidman. A principio Joy era apenas mais uma das muitas leitoras de Lewis residentes dos EUA, passou a ser uma correspondente e os dois passaram a compartilhar tanto experiências religiosas como literárias. Joy naquela época era casada, mas a relação com seu marido tornava-se cada vez pior. Com o tempo Joy mudou-se para a Inglaterra com a desculpa de que iria visitar uma amiga e dar continuidade em um livro que estava escrevendo. Em 1998, Douglas Gresham, em entrevista, deu sua opinião sobre o motivo que levou sua mãe à Inglaterra: “Seduzir Lewis”. *

Joy obteve um visto com algumas condições e passou a fazer parte dos Inklings, o seleto grupo literário que incluía tanto Tolkien quanto Lewis. É verdade que naquela época o grupo já não se reunia com tanta frequência, mas, de qualquer forma, as conversas de Joy e Lewis só aumentavam. Nesse interin, Joy fica sabendo que seu marido a traía com sua própria prima, talvez ela realmente nāo esperasse menos de um casamento que infelizmente encontrava-se em frangalhos. Em 1953 Joy volta aos EUA e se divorcia. Quando retorna à Inglaterra, não demora muito tempo, descobre um grave problema de saúde: câncer. Joy está divorciada, com dois filhos, longe de seu país e à beira da morte.

Talvez essa seja a fase em que Lewis e Joy mais se aproximam. É verdade que antes de Joy ficar doente ela já tinha se casado com Lewis, mas era um casamento, para usar as palavras de Tolkien (amigo próximo de Lewis), “estranhíssimo”. Casaram-se para viabilizar a permanência de Joy na Inglaterra, já que o prazo de seu visto havia terminado. Era, portanto, um casamento que não comprometia emocionalmente os dois. Porém, realmente não podemos imaginar outra coisa se não que, aos poucos, o humor e a inteligência de Joy iriam cativar o cauteloso coração de Lewis. O cenário é exatamente esse e a doença de Joy foi a cartada final do destino que decidira unir os dois não só na Amizade, mas também em Eros. Em carta à sua famosa amiga e romancista Dorothy Sayers, Lewis escreve sobre sua mudança de sentimento em relação a Joy fazendo alusão a Thanatos, o deus grego da morte. Ele escreve :

“Meus sentimentos haviam mudado. Dizem que um rival transforma um amigo num amante. Thanatos certamente (dizem) se aproximando, mas em uma velocidade incerta, é um rival eficientíssimo nesse sentido. Nós logo aprendemos a amar o que nós sabemos que devemos perder.”**

A alegria que Lewis e Joy compartilhavam, mesmo está estando doente, nos faz lembrar de Santo Agostinho e da famosa passagem de Confissões em que o bispo de Hipona relata a perda de seu amigo Nebrídio. A tristeza que Agostinho descreve em relação à perda de seu amigo nos leva à consideração de que não devemos depositar nossa felicidade em nada que possamos perder. Foi justamente esse registro primitivo que levou Lewis a escrever uma das máximas mais citadas de Os Quatro Amores:

“Para que o amor seja uma bênção, e não uma dor, ele deve se dirigir ao único Amado que nunca morrerá.”

Mas o que o leitor desatento não percebe é que Lewis cita Agostinho quase em um tom de reprovação – note que ele faz isso, para usar suas próprias palavras, com muita “hesitação”. Após confessar a dívida que tem com Agostinho, Lewis chega mesmo a dizer que tal pensamento é mais um “remanescente das nobres filosofias pagās da formação de Santo Agostinho do que parte de seu cristianismo”. Lewis vira a mesa citando o choro de Cristo sobre o túmulo de Lázaro e a possível perda que o apóstolo Paulo teria se Epafrodito, seu “companheiro de lutas”, partisse dessa para melhor. Paulo não se detém em dizer que tal coisa o levaria a “tristeza sobre tristeza” (Filipenses 2;27). O ponto de Lewis é que, mesmo sabendo que Lázaro poderia morrer, Jesus não o deixou de amar, mesmo sabendo, em sua onisciência, que iria derramar lágrimas sobre sua morte; o apóstolo dos gentios, da mesma forma, não deixou de amar Epafrodito mesmo presumindo sua possível perda e Paulo, diz Lewis, “tem maior autoridade sobre nós do que Santo Agostinho”. Em uma conclusão que deveria ficar registrada como o parágrafo mais estonteante de toda literatura cristã produzida no séc. XX, Lewis nos leva à uma reflexão estarrecedora:

“Nāo há saída pelo método sugerido por Santo Agostinho. Nem por nenhum outro método. Não existe investimento seguro. Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração certamente vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve intregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, sem movimento, sem ar -ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai se tornar indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa à tragédia, ou pelo menos ao risco de uma tragédia, é a condenação. O único lugar além do Céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor… é o inferno.”

Em 21 de março de 1957 Lewis e Joy celebram uma cerimônia religiosa de casamento feita de improviso no leito do hospital onde Joy estava internada. Aquela cerimônia, diferente do registro civil, tornava o relacionamento mais do que um simples álibe para que Joy permanecesse de forma legal na Inglaterra. A coisa toda se tornou muito mais do que isso, Lewis se entregara à vulnerabilidade do amor.

É claro que, sobre todos os aspectos, Lewis e Joy permaneceram amigos. O encontro da Amizade e Eros nāo precisa arruinar um em detrimento de outro. Lewis retrata Joy como “minha amada, mas, ao mesmo tempo, tudo o que nenhum amigo (e olha que tenho bons amigos) jamais foi para mim” ***. O encontro perfeito nāo coloca em perigo a majestade que carrega os amores, a dádiva consiste justamente em que a combinação torne ainda mais forte as características próprias de cada um dos sentimentos. Os anos de inverno da vida sentimental de Lewis havia chegado ao fim, a primavera dera os seus primeiros sinais.
O período em que esteve próximo de Joy fora, de fato, um dos mais inspiradores da vida literária de Lewis. É nessa época que Lewis escreve “Até que Tenhamos Rostos” (1956), “Lendo os Salmos” (1958) e “Os Quatro Amores” (1960). Principalmente Os Quatro Amores, deixa claro a influência do relacionamento de Joy e Lewis. O romance entre o casal que tinham em comum o gosto pela boa literatura, só podia ser nitidamente compreendido por aqueles que sabiam que havia algo mais que os unia, a busca de Deus. Em uma passagem épica de O Banquete encontramos uma boa sinalização pré-cristā de como o amor pode refletir uma busca que transcende os limites do tempo:

“[…] Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. 0 motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor.”****
Quem seria cético o suficiente para não enxergar o claro significado dessa passagem. O “todo” de Platão pode muito bem ser entendido como o estado natural do homem ligado à Deus, o amor entre um homem e uma mulher é um reflexo da constante busca de retorno à esse estado de plena comunhão com Deus. Há, contudo, duas possibilidades sobre como os nossos relacionamemtos refletem essa busca: podemos estar no caminho certo ou completamente perdidos.
Quem poderia negar que Lewis e Joy estavam na estrada certa, mesmo havendo, a princípio, uma série de circunstâncias negativas e todo um oceano que os separava. No entanto, infelizmente o romance entre Lewis e Joy durou muito pouco, e Joy faleceu de câncer três anos após se casarem no leito do hospital, em 1960. O risco sempre é real e o período de alegria compartilhada com aquela a quem ele havia entregado o seu coração chegou ao fim. Talvez uma das piores experiências de Lewis. Durante seu período de luto escreveu algumas notas que revelam o desespero desse momento, mais tarde foram publicadas sob o título de “A Anatomia de uma Dor”. Essa obra, por si só, daria um novo artigo. Ali, C.S.Lewis lida de forma prática com o problema do sofrimento e expressa o tamanho da sua angústia com a perda de sua amada. 

A morte a levou e ensinou Lewis que arriscar é preciso, mas o sofrimento da perda é sempre mais real na prática do que na teoria. Não há muita segurança no amor, mas a possibilidade da perda ou da decepção não deveria desanimar ninguém, apenas fazer refletir sobre se o amor em questão é reflexo de um amor maior ou se, na pior das hipóteses, apenas uma tentativa deseperada de preencher um vazio que só pode estar perfeitamente pleno com a presença e o amor do Criador. 

 Lewis perdeu Joy, mas dizem que na eternidade nos encontraremos com aquilo que há de eterno em cada pessoa – quem leu O Grande Abismo já aprendeu isso. Talvez possamos imaginar que, ao falecer em 1963, Lewis tenha tido a oportunidade de rever o melhor de Joy no “céu”. Mas, como escreve Lewis (por incrível que pareça, antes da morte de Joy), isso tudo”está distante, no ‘mundo da Trindade’, e não aqui, no exílio, no vale de lágrimas”.*****

Não temos certeza de como são algumas coisas além do nosso campo de vista decaído e temporal, mas podemos ter certeza que se o relacionamento deles tinha alguma coisa de eterno, eles hāo de reencontrá-lo em Cristo. Podemos ter certeza de que todas as história de verdadeira amizade e amor foram desde antes de todos os tempos planejadas por Aquele que sabe e quer que todas as coisas cooperem para o nosso bem. Ele não coloca uma vírgula que não seja necessária e nem um ponto onde não se perceba sua soberania. Ele é o começo e o fim, o Alfa e o Ômega. Todos os amores só são possíveis a medida que refletem o brilho de sua graça. 

Com efeito, os filósofos costumam dizer que a beleza nāo está no amor, no simples ato de amar não se encontra a chave para a felicidade. Aqueles que assim acharem morrerão esperando à porta. Mas é no que leva a amar é que se encontra a verdadeira alegria e beleza. É exatamente como disse Platão: “[…] o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.” **** Lewis, sem dúvida, teria dito que isso é uma placa que indica a direção de Cristo, no qual encontramos toda fonte de verdadeira amizade e verdadeiro amor, Ele próprio é a Dádiva do encontro. Sem Ele todas as histórias de amor seriam foscas e sem brilho.

Voltemos agora à nossa pergunta inicial: pode a Amizade conviver junto com Eros? A própria história de Lewis e Joy demonstra que a resposta é sim, mas não um sim definitivo que dispense exceções. Já aprendemos que respostas rápidas para questões complexas, são respostas ruins. Às vezes não precisamos tanto de uma resposta quanto de tempo e talvez o grande segredo que a vida nos ensine sobre esses casos seja o de que é preciso viver um dia após o outro. Joy não obteve respostas rápidas de Lewis e nem tomou decisões precipitadas quando ainda estava nos EUA, e nem Lewis quando ela já havia chegado à Inglaterra. Dentre todas as qualidades do amor, podemos dizer junto com Sāo Paulo, que ele também deve ser paciente além de recíproco. Se tem uma coisa que nós aprendemos na história de Lewis e Joy é que as circunstâncias nunca são capazes de fazer morrer os amores que se encontram enraizados naquele que ressurgiu dentre os mortos. O tempo nunca será um problema se nossos objetivos forem eternos e, como disse um grande pensador, “tudo o que não é eterno é eternamente inútil”.

* Ver McGrath, Alister. A Vida de C.S.Lewis: do ateísmo às Crônicas de Nárnia, cap. 13. Pg. 335.

**Carta a Dorothy L. Sayers, 25 de jun. 1957; The Collected Letters, vol. 3, pg. 861.

*** A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação. Sāo Paulo: Editora Vida, 2007. Pg.63.

**** Platão. O Banquete (o amor, o belo), versão Kindle.

***** Idem.
Obs.: Todas as citações de Lewis (salvo indicação contrária), inclusive a que se encerra o texto, encontram-se no sexto capítulo de Os Quatro Amores, em que se fala sobre a Caridade.
Sobre o autor: 

Filipe Galhardo é editor da Sociedade C.S.Lewis Brasil e Diácono na Igreja Presbiteriana de Jaconé. 

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A Teoria Humanitária da Punição, Por C.S.Lewis.

A Teoria Humanitária da Punição*

Por C.S. Lewis (tradução conservadorismopolitico.wordress.com)

Fonte: http://www.spiked-online.com/images/273-275-1-PB.pdf

Na Inglaterra, temos recentemente tido uma controvérsia sobre a Pena Capital. Eu não sei se um homicida é mais capaz de se arrepender e fazer o bem na forca, algumas semanas após seu julgamento, ou na enfermaria da prisão, trinta anos depois. Eu não sei se o medo da morte é um dissuasor indispensável. Eu não preciso, para o propósito desse artigo, decidir se este é um dissuasor moralmente permissível. Essas são questões que proponho deixar intocada. Meu assunto não é a Pena Capital em particular, mas aquela teoria da punição em geral que a controvérsia revelou ser chamada a teoria Humanitária. Aqueles que a defendem pensam que ela é suave e misericordiosa. Nisto acredito que eles estão seriamente enganados. Acredito que a “Humanidade” que eles afirmam é uma ilusão perigosa e disfarça a possibilidade de crueldade e injustiça sem fim. Insto um retorno à teoria tradicional, ou Retributiva, não apenas, nem sequer primariamente, nos interesses da sociedade, mas nos interesses do criminoso.

De acordo com a teoria Humanitária, punir um homem porque ele merece, e tão quanto ele merece, é mera vingança, e, portanto, bárbaro e imoral. Alega-se que os únicos motivos legítimos para punir são os desejo de dissuadir outros por exemplo ou consertar o criminoso. Quando essa teoria é combinada, como frequentemente acontece, com a crença de que todo o crime é mais ou menos patológico, a ideia de consertar diminui-se àquela de cicatrizar ou curar [healing or curing], e a punição se torna terapêutica. Dessa forma, parece à primeira vista que nós passamos da noção dura e farisaica de dar aos ímpios seus merecimentos [Desert, termo filosófico: sentido aproximado] para a caridosa e esclarecida de cuidar dos psicologicamente doentes. O que poderia ser mais afável? Um pequeno ponto que é dado como certo por essa teoria, porém, precisa ser explicitado. As coisas feitas ao criminoso, mesmo que elas sejam chamadas de curas, serão tão compulsórias quanto elas eram nos velhos dias em que as chamávamos de punições. Se uma tendência de roubar pode ser curada por psicoterapia, o ladrão, sem dúvida, será forçado a submeter-se ao tratamento. De outra forma, a sociedade não pode continuar.

Meu argumento é de que essa doutrina, misericordiosa que pareça, na realidade significa que cada um de nós, a partir do momento em que ele quebra a lei, é privado dos direitos de um ser humano.

A razão é essa. A teoria Humanitária remove da Punição o conceito de Merecimento. Mas o conceito de Merecimento é o único elo de ligação entre punição e justiça. É apenas como merecida ou imerecida que uma pena pode ser justa ou injusta. Eu não alego aqui que a questão ‘Ela é merecida?’ é a única que podemos razoavelmente perguntar sobre uma punição. Podemos bem apropriadamente perguntar se ela é suscetível de dissuadir outros e de reformar o criminoso. Mas nenhuma dessas duas últimas questões é uma questão de justiça. Não há sentido em falar sobre uma “dissuasão justa” ou de uma “cura justa”. Exigimos de um dissuasor não se é justo, mas que detenha. Exigimos de uma cura não se é justa, mas se  tem êxito. Logo, quando deixamos de considerar o que o criminoso merece e consideramos apenas o que irá curá-lo ou dissuadir outros, nós tacitamente o removemos por completo da esfera da justiça; em vez de uma pessoa, um sujeito de direitos, temos agora meramente um objeto, um paciente, um “caso”.

A distinção se tornará mais clara se nós perguntarmos quem será qualificado para determinar penas quando as penas não forem mais tidas como derivando sua adequação dos merecimentos do criminoso. Na visão antiga, o problema de fixar a pena certa era um problema moral. Por conseguinte, o juiz que fazia isso era uma pessoa treinada em jurisprudência; treinada, isto é, em uma ciência que lida com direitos e deveres, e que, pelo menos em sua origem, aceitava conscientemente a orientação da Lei da Natureza e da Escritura. Devemos também admitir que no código penal real da maioria dos países na maior parte do tempo esses originais elevados foram tão modificados pelo costume local, interesses de classe e concessões utilitárias ao ponto de ser muito imperfeitamente reconhecível. Mas o código nunca esteve em princípio, e nem sempre de fato, além do controle da consciência da sociedade. E quando (digamos, na Inglaterra do século dezoito) punições reais conflitavam muito violentamente com o senso moral da comunidade, os júris se recusaram a condenar e a reforma foi finalmente provocada. Isto foi possível  porque, enquanto estivermos pensando em termos de Merecimento, a propriedade do código penal, sendo uma questão moral, é uma questão em que todo homem tem o direito a uma opinião, não porque ele segue essa ou aquela profissão, mas simplesmente porque ele é um homem, um animal racional desfrutando da Luz Natural. Mas tudo isso muda quando deixamos de lado o conceito de Merecimento. As únicas duas questões que podemos agora perguntar sobre uma punição são se ela dissuade e se cura. Mas essas não são questões sobre as quais qualquer um tem o direito de ter uma opinião simplesmente por ser um homem. Ele não tem o direito a uma opinião mesmo que, além de ser um homem, ele por acaso seja também um jurista, um Cristão e um teólogo moral. Pois elas não são questões sobre princípio, mas sobre assuntos de fato; e, para tais, quicam in sua arte credendum [latim: algo como “qualquer um, em sua arte/habilidade, acredite”]. Apenas o ‘penólogo’ especialista (deixemos coisas bárbaras terem nomes bárbaros), à luz de experimento anterior, pode nos dizer o que é provável de dissuadir: só o psicoterapeuta pode nos dizer o que é provável de curar. Será vão para o resto de nós, falando simplesmente como homens, dizer, ‘mas essa punição é medonhamente injusta, medonhamente desproporcional aos merecimentos do criminoso’. O especialista, com lógica perfeita, responderá, ‘mas ninguém estava falando sobre merecimentos. Ninguém estava falando de punição em seu sentido vingativo arcaico da palavra. Aqui estão as estatísticas provando que esse tratamento dissuade. Aqui estão as estatísticas provando que esse outro tratamento cura. Qual sua dificuldade?’

A teoria Humanitária, então, remove as penas das mãos de juristas a quem a consciência pública tem o direito de criticar e as coloca nas mãos de especialistas técnicos cujas ciências especiais nem ao menos empregam tais categorias como direitos ou justiça. Pode-se argumentar de que, como essa transferência resulta de um abandono da velha ideia de punição, e, portanto, de todos os motivos vingativos, será mais seguro deixar nossos criminosos em tais mãos. Não farei uma pausa para comentar sobre a visão simplória da natureza humana decaída que tal crença implica. Deixe-nos, em vez disso, lembrar que a ‘cura’ dos criminosos deve ser compulsória; e deixe-nos então assistir como a teoria realmente funciona na mente do Humanitário. O ponto de partida imediato desse artigo foi uma carta que li em uma de nossos semanais Esquerdistas. O autor estava suplicando que um pecado que um determinado pecado, hoje tratado por nossas leis como um crime, deveria doravante ser tratado como uma doença. E ele queixou-se que, sob nosso sistema atual, o infrator, após um tempo na cadeia, era simplesmente solto para retornar ao seu ambiente original, onde ele provavelmente teria uma recaída. O que ele queixou-se de não foi o fechamento [do preso na cadeia], mas o deixar sair. Em sua visão curativa da punição o infrator deveria, naturalmente, ser detido até que ele fosse curado. E, é claro que os endireitadores oficiais são as únicas pessoas que podem dizer quando isto é. O primeiro resultado da teoria Humanitária é, portanto, substituir uma sentença definitiva (refletindo até certo ponto o julgamento moral da comunidade sobre o grau de mal-merecimento envolvido) por uma sentença indefinida terminável somente pela palavra daqueles especialistas—e eles não são especialistas em teologia moral e nem mesmo na Lei da Natureza—que a infligem. Qual de nós, se estivesse no banco dos réus, não preferiria ser julgado pelo sistema antigo?

Pode ser dito que através utilização continuada da palavra punição e o uso do verbo ‘infligir’ eu estou deturpando os Humanitários. Eles não estão punindo, não infligindo, apenas curando. Mas não nos deixemos enganar por um nome. Ser levado sem minha permissão de minha casa e amigos; perder minha liberdade; ser submetido a todos esses ataques a minha personalidade que a psicoterapia moderna sabe bem como proporcionar; ser refeito em função de algum padrão de ‘normalidade’ chocado em um laboratório Vienense ao qual nunca professei fidelidade; saber que esse processo nunca terminará até meus raptores terem sucesso, ou até que eu me torne sábio o suficiente para enganá-los com sucesso aparente—quem se importa se isso é chamado Punição ou não? Que isso inclui a maior parte dos elementos pelos quais qualquer punição é temida—vergonha, exílio, servidão, e anos consumidos pelo gafanhoto—é óbvio. Apenas um enorme mal-merecimento poderia justificar isso; mas mal-merecimento é a própria concepção que a teoria Humanitária jogou fora.

Se nos voltamos agora da justificação curativa da punição para a dissuasiva, descobriremos a nova teoria ainda mais alarmante. Quando você pune um homem in terrorem [latim: para/sobre o medo], fazemos dele um ‘exemplo’ para outros, você está assumidamente usando-o como um meio para um fim; o fim de outra pessoa. Isso, por si só, seria uma coisa bem perversa de se fazer. Na teoria clássica da Punição isto era, é claro, justificado com o fundamento de que o homem o merecia. Isso era suposto estabelecido antes que qualquer pergunta de ‘fazer dele um exemplo’ surgisse. Você, então, como diz o ditado, matou dois coelhos com uma cajadada só [em inglês, dois pássaros com uma pedra; o sentido é o mesmo]; no processo de lhe dar o que ele merecia, você dava como exemplo aos outros. Mas retire o merecimento e toda a moralidade da punição desaparece. Por que, em nome dos Céus, eu devo ser sacrificado pelo bem da sociedade desta maneira?—a não ser, é claro, que eu mereça isso.

Mas isto não é o pior. Se a justificação da punição exemplar não deve ser baseada no merecimento, mas apenas em sua eficácia como um dissuasor, então não é absolutamente necessário que o homem que punimos deva ao menos ter cometido o crime. O efeito de dissuasão exige que o público capte a moral ‘Se fizermos tal ato nós sofreremos como aquele homem.’ A punição de um homem realmente culpado que o público acha inocente não terá o efeito desejado; a punição de um homem na realidade inocente irá, dado que o público ache-o culpado. Mas todo Estado moderno  tem poderes que tornam fácil fingir um julgamento. Quando uma vítima é urgentemente necessária para propósitos de exemplificação e uma vítima culpada não pode ser encontrada, todos os propósitos de dissuasão serão igualmente servidos pela punição (chame de ‘cura’ se preferir) de um homem inocente, dado que o público possa ser enganado a achá-lo culpado. Não adianta me perguntar por que eu assume que nossos governantes serão tão maus. A punição de um inocente, isto é, um homem não merecedor, é má apenas se concedermos a visão tradicional de que punição justa significa punição merecida. Após abandonarmos esse critério, todas as punições terão que ser justificadas, se de todo, com outros fundamentos que nada tem nada a ver com merecimento. Onde a punição de um inocente possa ser justificada com base nesses fundamentos (e poderia em alguns casos ser justificada como um dissuasor), não será menos moral que qualquer outra punição. Qualquer desgosto por ela da parte do Humanitário será meramente uma ressaca da teoria Retributiva.

É, de fato, importante ressaltar que meu argumento até agora não pressupõe nenhuma má intenção da parte do Humanitário e considera apenas o que está envolvido na lógica de sua posição. Minha contenda é que homens bons (não homens maus), agindo consistentemente sobre essa posição, iriam agir tão cruel e injustamente quanto os maiores tiranos. Eles podem em alguns aspectos agir até pior. De todas as tiranias, uma tirania sinceramente exercida pelo bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva. Pode ser melhor viver sob barões ladrões [robber barons, plutocratas inescrupulosos] do que sob intrometidos morais onipotentes. A crueldade do barão ladrão pode algumas vezes dormir, sua cupidez pode ser em algum momento saciada; mas aqueles que nos atormentam para o nosso próprio bem nos atormentarão sem fim, pois eles o fazem com a aprovação de suas próprias consciências. Eles podem ser mais propensos a ir para o Céu, mas, ao mesmo tempo mais propensos a fazer da terra um Inferno. Sua própria bondade ferroa com insulto intolerável. Ser ‘curado’ contra sua vontade, e curados de estados que podemos não considerar como doença, é ser posto no mesmo nível daqueles que ainda não atingiram a idade da razão, ou daqueles que nunca irão; ser classificado com crianças, imbecis e animais domésticos. Mas ser punido, seja quão severamente, porque nós o merecemos, porque ‘devíamos saber melhor’, é ser tratado como uma pessoa humana feita  à imagem de Deus.

Na realidade, porém, devemos encarar a possibilidade de maus governantes armados com uma teoria Humanitária de punição. Um grande número de plantas [de projeto, blueprint] para uma sociedade Cristã são meramente o que os Elizabetanos chamavam ‘cascata’ [‘eggs in moonshine‘, prato elisabetano. Expressão usada de forma não literal; foi traduzida assim em sua ocorrência no Príncipe Caspian, de autoria de Lewis], porque elas assumem que a totalidade da sociedade é Cristã, ou que os Cristãos estão no controle. Esse não é o caso na maior parte dos estados Contemporâneos. Mesmo se fosse, nossos governantes ainda seriam homem decaídos, e, portanto nem muito sábios nem muito bons. Como é, eles geralmente serão descrentes. E já que a sabedoria e a virtude não são as únicas ou as mais comuns qualificações para um lugar no governo, eles normalmente não serão sequer os melhores descrentes.

O problema prático da política Cristã não é aquele de elaborar esquemas para uma sociedade Cristã, mas aquele de viver tão inocentemente quanto podemos com nossos companheiros súditos sob governantes descrentes que nunca serão perfeitamente sábios e bons e que algumas vezes serão bem maus e bem tolos. E quando eles são maus, a teoria Humanitária da punição colocará em suas mãos um instrumento de tirania melhor do que a malvadez já teve antes. Pois se crime e doença devem ser considerados a mesma coisa, segue-se que qualquer estado de espírito que nossos mestres escolherem chamar de ‘doença’ podem ser tratados como um crime; e compulsoriamente curados. Será inútil alegar que estados de espírito que desagradam o governo não precisam sempre envolver torpeza moral e, portanto, não merecem sempre a perda da liberdade. Pois nossos mestres não estarão usando os conceitos de Merecimento e Punição, mas aqueles de doença e cura. Nós sabemos que uma escola da psicologia já considera a religião como uma neurose. Quando essa neurose em particular se tornar inconveniente para o governo, o que impedirá  o governo de prosseguir para ‘curá’-la? Tal ‘cura’, é claro, será compulsória; mas sob a teoria Humanitária isso não será chamado pelo nome chocante de Perseguição. Ninguém irá nos culpar por sermos Cristãos, ninguém irá nos odiar, ninguém irá nos injuriar. O novo Nero irá se aproximar de nós com as maneiras sedosas de um médico, e embora tudo será de fato tão compulsório quanto a tunica molesta [latim: camisa irritante; método de execução por queima usado na Roma Antiga] ou Smithfield ou Tyburn [áreas da Inglaterra associadas à execuções], tudo irá ocorrer dentro da esfera terapêutica sem emoção na qual palavras como ‘certo’ e ‘errado’ ou ‘liberdade’ e ‘escravidão’ nunca são escutadas. E de tal forma, quando o comando for dado, todo Cristão proeminente na terra poderá desaparecer noturnamente em Instituições para o Tratamento dos Ideologicamente Doentios, e recairá sobre os carcereiros especialistas dizer quando (se algum dia) eles irão reemergir. Mas não será perseguição. Mesmo que o tratamento seja doloroso, mesmo que seja vitalício, mesmo que seja fatal, tudo isso será apenas um acidente lastimável; a intenção era puramente terapêutica. Na medicina comum haviam operações dolorosas e operações fatais; igualmente nisto. Mas, porque eles são ‘tratamentos’, não punição, eles podem ser criticados apenas por colegas especialistas, e apenas em bases técnicas, nunca por homens como homens e com bases na justiça.

É por isso que acho essencial se opor a teoria Humanitária da punição, raiz e ramos, onde quer que a encontremos. Ela carrega em sua fronte um semblante de misericórdia que é completamente falso. E assim que ela engana homens de boa vontade. O erro começou com a afirmação de Shelley de que a distinção entre misericórdia e justiça foi inventada nas cortes de tiranos. Soa nobre, e foi de fato o erro de uma mente nobre. Mas a distinção é essencial. A visão mais velha era de que a misericórdia ‘temperava’ a justiça, ou (no nível mais alto de todos) que a misericórdia e a justiça tinham se encontrado e se beijado. O ato essencial da misericórdia era perdoar; e perdoar em sua própria essência envolve o reconhecimento de culpa e mal-merecimento no recipiente. Se o crime é apenas uma doença que precisa ser curada, não um pecado que merece punição, não pode ser perdoado. Como você pode perdoar um homem por ter um abcesso dentário ou um pé torto? Mas a teoria Humanitária quer simplesmente abolir a Justiça e substituí-la pela Misericórdia. Isto significa que você começa sendo ‘gentil’ para as pessoas antes de você ter considerado seus direitos e  então força sobre elas supostas gentilezas que ninguém além de você irá reconhecer como gentilezas, e cujo recipiente irá sentir como crueldades abomináveis. Você extrapolou o objetivo [overshot the mark]. A Misericórdia, separada da justiça, se torna imisericordiosa. Esse é o paradoxo importante. Assim comohá plantas que irão florescer apenas em solo montanhoso, da mesma forma parece que a Misericórdia florescerá apenas quando ela cresce nas fendas da rocha da Justiça; transplantada para os pântanos do mero humanitarismo, torna-se uma erva daninha devoradora de homens, ainda mais perigosa porque ainda é chamada pelo mesmo nome que a variedade da montanha. Mas deveríamos há muito ter aprendido nossa lição. Nós deveríamos agora ser velhos demais para sermos enganados por essas pretensões humanitárias que têm servido para iniciar cada crueldade do período revolucionário no qual vivemos. Estes são os ‘bálsamos preciosos’ que irão ‘quebrar nossas cabeças’.

Há uma boa frase em Bunyan: ‘Me veio queimando na mente a ideia de que, apesar do que ele disse, e por mais que me bajulasse, quando ele me levasse para sua casa, me venderia como escravo.’ Há um bom dístico, também, em John Ball:

‘Cuidado antes do aflito

Saiba [diferenciar] seu amigo do seu inimigo.’

[Descobri o que “ye be woo” significava perguntando na internet, “woo” seria “woe” e “ere” seria “before”. O original era ‘Be ware ere ye be woo; Know your friend from your foe.‘, escrito em um inglês de séculos atrás. O atual seria algo como “Beware before you woe”. Basicamente: tenha cuidado antes de se arrepender/sofrer/dizer ai, saiba distinguir amigos e inimigos]

Uma última palavra. Você pode perguntar porque eu enviei isto para um periódico australiano. A razão é simples e talvez valha a pena registrar; não consigo audiência para ele na Inglaterra.

C.S. Lewis (1898-1963) era um ensaísta, novelista e poeta, e na faculdade de Magdalen College, Oxford, quando ele escreveu esse artigo.

*Reimpresso de C.S. Lewis (1949), A teoria humanitária da punição, The Twentieth Century: An Australian Quarterly Review, 3 (3), 5-12

Fonte: https://conservadorismopolitico.wordpress.com/2014/11/15/a-teoria-humanitaria-da-punicao/

Via: http://ultimato.com.br/sites/cslewis/2017/01/05/a-teoria-humanitaria-da-punicao/

Bulverismo, ou os fundamentos do pensamento do século XX. Por C.S.LEWIS.


Bulverismo, ou os fundamentos do pensamento do século XX

por C. S. Lewis

É necessário mostrar que um homem está errado antes de começar a explicar porque ele está errado.

Nota do tradutor – Este talvez seja o texto curto mais famoso de Lewis. Nele o autor identifica o que pode ser considerado um novo estratagema erístico, que Schopenhauer não descreveu em seu famoso tratado sobre a técnica de ganhar uma discussão, mesmo sem ter razão. [*] Ele não poderia fazê-lo, pois o bulverismo alimenta-se da psicanálise e do marxismo para sobreviver, duas coisas que não existiam na época do filósofo alemão. O tema geral deste texto é mais bem desenvolvido no capítulo terceiro (A principal dificuldade do Naturalismo) do livro de Lewis intitulado “Milagres”. Lá o autor desenvolve com mais vagar seus argumentos sobre a Razão, o pensamento e os eventos físicos em geral.

***

É desastrosa, como diz Emerson, a descoberta de que existimos. Quero dizer, é desastrosa quando, ao invés de atentarmos para a rosa, somos forçados a pensar em nós observando a rosa, com um certo tipo de mente e um certo tipo de olhos. É desastroso porque, se você não for muito cuidadoso, a cor da rosa acaba sendo atribuída ao nosso nervo ótico e seu perfume ao nosso nariz e, no final, não sobra nenhuma rosa. Os filósofos profissionais têm se preocupado com esse blackout universal por duzentos anos e o mundo não tem dado ouvido a eles. Mas, o mesmo desastre está agora acontecendo em um nível que todos nós podemos entender.

Descobrimos recentemente que nós “existimos” em dois novos sentidos. Os freudianos descobriram que existimos como feixes de complexos. Os marxistas descobriram que existimos como membros de alguma classe econômica. Antigamente, supunha-se que se uma coisa parecia obviamente verdadeira a cem homens, então ela era provavelmente verdadeira de fato. Hoje em dia, o freudiano dirá que temos de analisar os cem indivíduos: descobriremos que eles consideram Elizabeth I uma grande rainha porque todos eles têm um complexo materno. Seus pensamentos são psicologicamente deformados na fonte. E o marxista dirá que temos de examinar os interesses econômicos das cem pessoas: descobriremos que todos consideram a liberdade uma boa coisa porque eles são todos membros da burguesia cuja prosperidade cresce sob a política do laissez-faire. Seus pensamentos são “ideologicamente distorcidos” na fonte.

Ora, isso é obviamente muito engraçado; mas, nem sempre se nota que há um preço a pagar por isso. Há duas questões que devemos formular às pessoas que dizem tais coisas. A primeira é: todos os pensamentos são, então, distorcidos na fonte ou apenas alguns? A segunda é: a distorção invalida o pensamento – no sentido de torná-lo inútil – ou não?

Se eles disserem que todos os pensamentos são assim distorcidos, então, claramente, devemos lembrá-los que as teorias freudiana e marxista são sistemas de pensamento tanto quanto a teologia cristã e o idealismo filosófico. Todas essas teorias estão no mesmo barco em que nos encontramos e não podem nos tecer críticas desde o exterior. Eles serraram o galho em que estavam sentados. Se, por outro lado, eles disserem que a distorção não invalida necessariamente o pensamento deles, então ela também não invalida o nosso. Nesse caso, eles salvarão o próprio galho mas também salvarão o nosso.

O único caminho que eles podem realmente tomar é dizer que alguns pensamentos são distorcidos e outros não – o que tem a vantagem (se freudianos e marxistas considerarem isso uma vantagem) de ser o que todos os homens sãos sempre acreditaram. Mas, se é assim, devemos perguntar como se faz para descobrir quais são distorcidos e quais não são. Não adianta dizer que os distorcidos são aqueles que concordam como os desejos secretos do pensante. Algumas das coisas que eu desejo devem ser verdadeiras; é impossível organizar um universo que contradiz cada desejo de alguém, em todos os aspectos, o tempo todo. Suponha que, depois de fazer muita conta, eu imagino que tenho um grande saldo bancário. E suponha que você queira descobrir se minha crença é “wishful thinking”. Você não chegará a nenhuma conclusão apenas examinando minha condição psicológica. Sua única chance é sentar e rever meus cálculos. Quando isso acontecer, então, e somente então, você saberá se eu tenho aquele saldo ou não. Se você concluir que minha aritmética está certa, então qualquer quantidade de ilações sobre minha condição psicológica só será uma grande perda de tempo. Se você descobrir que meus cálculos estão errados, então pode ser relevante uma explicação psicológica sobre como eu pude ser tão ignorante em matemática, e a doutrina do desejo secreto se tornará importante – mas, somente depois de você ter feito a soma e descoberto, em bases puramente matemáticas, meu erro. Acontece o mesmo com todo o pensamento e com todos os sistemas de pensamento. Se você tenta descobrir qual está distorcido por meio de especulações sobre os desejos dos pensantes, você está meramente se enganando. Você deve primeiro descobrir, em bases puramente lógicas, qual deles de fato pode ser reduzido a argumentos. Depois, se você quiser continue e descubra as causas psicológicas do erro.

Em outras palavras, você deve mostrar que um homem está errado antes de começar a explicar porque ele está errado. O método moderno assume, sem discussão, que ele está errado e então distrai sua atenção disso (a única questão real) por meio de uma prolixa explicação de como ele se tornou tão tolo. No curso dos últimos quinze anos tenho descoberto que esse vício é tão comum que eu inventei um nome para ele. Eu o chamo Bulverismo. Algum dia eu vou escrever a biografia de seu inventor imaginário, Ezekiel Bulver, cujo destino foi determinado quando ele tinha 5 anos de idade e ouviu sua mãe dizer ao seu pai – que afirmava que a soma do comprimento dos dois lados de um triângulo era maior que o comprimento do terceiro – “Ah, você diz isso porque você é um homem”. “Naquele momento”, E. Bulver nos conta, “como um facho de luz, a grande verdade atingiu minha mente receptiva: a refutação não é uma parte necessária de um argumento. Suponha que seu oponente esteja errado e que, então, você explique o erro dele. O mundo estará a seus pés. Tente provar que ele está errado e o dinamismo nacional de nosso tempo lançará vo cê contra a parede”. Foi assim que Bulver se tornou um dos construtores do Século XX.

Encontro os frutos de sua descoberta em todo o lugar. Assim, vejo minha religião rejeitada sob o argumento de que ‘o pároco de vida confortável tinha toda a razão de assegurar ao trabalhador do século XIX de que a pobreza seria recompensada num outro mundo’. Bem, sem dúvida ele tinha. Supondo que o cristianismo seja errado, posso ver muito bem que alguns ainda teriam um motivo para inculcar tal idéia. Vejo isso tão facilmente que posso, claro, inverter a coisa e dizer: ‘o homem moderno tem toda a razão para tentar convencer-se de que não há nenhuma sanção eterna por trás da moralidade que ele rejeita’. Pois, o bulverismo é um jogo verdadeiramente democrático no sentido de que todos podem jogá-lo o tempo todo e de que ele não trata injustamente a pequena e ofensiva minoria que o joga. Mas, claro está que ele não nos aproxima sequer um milímetro da conclusão a respeito da falsidade ou verdade do cristianismo. Essa questão permanece em aberto para ser discutida em bases muito diferentes – utilizando-se argumentos históricos e filosóficos. Qualquer que seja a decisão, os motivos impróprios da crença ou descrença permanecerão intocados.

Até que o bulverismo seja vencido, a razão não pode ter nenhum papel nas questões humanas.

Vejo o bulverismo em funcionamento em todo argumento político. Os capitalistas devem ser maus economistas, pois sabemos porque eles querem o capitalismo. Igualmente, os comunistas devem ser maus economistas, pois sabemos porque eles querem o comunismo. Assim, há bulveristas de ambos os lados. Na realidade, ou as doutrinas dos capitalistas são falsas, ou as doutrinas dos comunistas são falsas ou ambas são falsas; mas você só pode descobrir os erros e os acertos por meio do raciocínio – nunca por meio de grosserias a respeito da psicologia do seu oponente.

Até que o bulverismo seja vencido, a razão não pode ter nenhum papel nas questões humanas. Cada lado agarra-se ao bulverismo como uma arma contra o outro; entre os dois, a própria razão é desacreditada. E por que não seria? Seria fácil, em resposta, mostrar o estado presente do mundo mas a resposta real é ainda mais imediata. As forças que desacreditam a razão, elas próprias dependem da razão. Você raciocina mesmo quando bulverisa. Você está tentando provar que todas as provas são inválidas. Se você falhar, você falhou. Se você tiver sucesso, então você falha ainda mais – pois a prova de que todas as provas são inválidas deve ser, ela própria, inválida.

A alternativa seria ou uma completa idiotice auto-contraditória ou então, uma crença tenaz no nosso poder de raciocínio, mantido a unhas e dentes diante de toda evidência que os bulveristas pudessem trazer de uma ‘distorção’ neste ou naquele raciocínio humano. Estou pronto a admitir, se você quiser, que essa crença tenaz tem algo de transcendental ou místico. E daí? Você preferiria ser um lunático ao invés de um místico?

Assim, vemos que há justificativa para nos atermos à crença na Razão. Mas, isso pode ser feito sem o teísmo? A expressão “Eu conheço” não implica que Deus existe? Tudo que conheço é uma inferência da sensação (exceto o momento presente). Todo o nosso conhecimento do universo, além de nossa experiência imediata, depende de inferências dessas experiências. Se nossas inferências não nos dão uma genuína apreensão da realidade, então nada podemos conhecer. Uma teoria não pode ser aceita se não permite que nosso raciocínio nos leve a uma genuína apreensão, nem tampouco se o nosso conhecimento não for explicável em termos dessa teoria.

Mas, nossos pensamentos só podem ser aceitos como apreensões genuínas sob certas circunstâncias. Todas as crenças têm causas, mas uma distinção há de ser feita entre (1) as causas ordinárias e (2) um tipo especial de causa chamada “uma razão”. Causas são eventos inconscientes que podem produzir outros resultados além de crenças. Razões surgem de axiomas e inferências e afetam nossas crenças. O bulverismo tenta mostrar que outro homem tem causas e não razões e que nós temos razões e não causas. Uma crença que pode ser explicada inteiramente em termos de causas é inútil. Esse princípio não deve ser abandonado quando consideramos as crenças que são os fundamentos de outras. Nosso conhecimento depende de nossa certeza sobre axiomas e inferências. Se esses são resultados de causas, então não há possibilidade de conhecimento. Ou não podemos conhecer nada ou o pensamento tem apenas razões e não causas.

[O resto deste ensaio, que foi originalmente lido no Clube Socrático antes da publicação no Socratic Digest, continua na forma de notas tomadas pelo secretário do clube. Isso explica porque ele não é todo na primeira pessoa, como o texto até aqui.]

Pode-se argumentar, continuou o sr. Lewis, que a razão evoluiu por seleção natural e que somente os métodos de raciocínio que se provaram úteis sobreviveram. Mas a teoria depende de uma inferência que ligue a utilidade à verdade, cuja validade deve ser suposta. Todas as tentativas de tratar o pensamento como um evento natural envolvem a falácia de excluir o pensamento do indivíduo que faz a tentativa.

Admite-se que a mente é afetada por eventos físicos; um aparelho eletrônico é influenciado por eventos atmosféricos, mas não os causa – não notaremos isso se pensarmos o contrário. Podemos relacionar eventos naturais uns com os outros numa seqüência contínua no espaço-tempo. Mas o pensamento não tem outro pai a não ser o pensamento. Ele é condicionado, sem dúvida, mas não tem causa. Meu conhecimento de que estou ansioso é gerado por inferência.

O mesmo argumento aplica-se aos nossos valores, que são afetados por fatores sociais, mas se estes causam aqueles, nunca poderemos saber se eles (os valores) são certos. Pode-se rejeitar a moralidade como uma ilusão, mas o indivíduo que faz isso o faz freqüentemente excetuando seu próprio motivo ético tacitamente: por exemplo, no caso da tentativa de libertar a moralidade da superstição e de difundir a ilustração.

Nem a Vontade nem a Razão são produtos da Natureza. Portanto, ou eu sou auto-existente (uma crença que ninguém pode aceitar) ou eu sou dependente de algum Pensamento ou Vontade que é auto-existente. Tal razão e bondade que podemos atingir devem derivar de uma Razão e uma Bondade auto-existentes fora de nós, na realidade, uma Razão e uma Bondade Sobrenaturais.

O sr. Lewis continuou dizendo que é comum se argumentar que a existência do Sobrenatural é excessivamente importante para ser discernível apenas por argumentos abstratos e que, dessa forma, apenas alguns poucos desocupados podem fazê-lo. Mas, em todas as outras eras o homem comum tem aceitado as descobertas dos místicos e dos filósofos para a formulação de sua crença inicial no Sobrenatural. Atualmente, o homem é forçado, ele próprio, a carregar aquele peso. Ou a humanidade cometeu um terrível erro em rejeitar a autoridade, ou o poder(es) que controla(m) seu destino está (ão) fazendo um ousado experimento, e estamos todos no caminho de nos tornarmos sábios. Uma sociedade que consista apenas de homens comuns está fadada ao desastre. Se vamos sobreviver, devemos ou acreditar nos homens de visão ou escalar as alturas nós próprios.

Evidentemente então, algo além da Natureza existe. O homem está na linha limite entre o Natural e o Sobrenatural. Os event os materiais não podem produzir atividade espiritual, mas esta pode ser responsável por muitas de nossas ações na Natureza. A Vontade e a Razão não podem depender de nada a não ser delas próprias, mas a Natureza pode depender da Vontade e da Razão ou, em outras palavras, Deus criou a Natureza.

A relação entre a Natureza e o Sobrenatural, que não é uma relação no espaço e no tempo, torna-se inteligível se o Sobrenatural tiver feito o Natural. Temos até uma idéia disso, pois conhecemos o poder da imaginação, apesar de não podermos criar nada novo, mas podemos rearranjar o material absorvido pelos sentidos. Não é inconcebível que o universo tenha sido criado por uma Imaginação forte o suficiente para impor os fenômenos em nossas mentes.

Sugere-se, o sr. Lewis conclui, que nossas idéias do fazer e do causar são inteiramente derivadas de nossa experiência da vontade. A conclusão que usualmente se tira é que não há o fazer ou o causar, apenas “projeção”. Mas, “projeção” é em si uma forma de causar e é mais razoável supor que a Vontade é a única causa que conhecemos e que, portanto, a Vontade é a causa da Natureza.

Uma discussão se segue. Alguns pontos levantados:

Todo o raciocínio supõe a hipótese de que a inferência é válida. A inferência correta é auto-evidente.

“Relevante” (re-evidente) é um termo racional.

O universo não alega ser verdadeiro: ele apenas existe.

Conhecimento por revelação é mais conhecimento empírico do que racional.

Pergunta : Qual é o critério da verdade, se você distingue entre causa e razão?

Sr. Lewis: Um país montanhoso deve ter muitos mapas. Apenas um é verdadeiro, isto é, apenas um corresponde aos contornos reais. O mapa feito pela Razão alega ser o verdadeiro. Eu não poderia perceber o universo a menos que eu pudesse confiar em minha razão. Se não pudéssemos confiar na inferência não poderíamos conhecer nada, exceto nossa própria existência. A realidade física é uma inferência de nossas sensações.

Pergunta: Como um axioma pode ser mais auto-evidente do que um juízo baseado em evidência empírica?

[Este ensaio termina aqui, deixando essa questão sem resposta.]

Notas:

Texto originalmente publicado no livro God in the Dock.

Tradução: Antonio Emílio Angueth de Araújo

[*] Ver, Como Vencer um Debate sem Ter Razão: em 38 estratagemas, Introdução, Notas e Comentários de Olavo de Carvalho, Topbooks, 1997.

Fonte: Mídia sem Máscara e Mídia sem Máscara
Fonte: http://semanacslewis.blogspot.com.br/2012/11/bulverismo-ou-os-fundamentos-do.html

Via: http://ultimato.com.br/sites/cslewis/2014/05/30/bulverismo-ou-os-fundamentos-do-pensamento-do-seculo-xx/

Livre-arbítrio, Providência e Soberania na vida e obra de C.S.Lewis

Livre-arbítrio, Providência e Soberania na vida e obra de C.S.Lewis

“Ele [C.S.Lewis] era centrado em Cristo, um cristão de tendência da grande tradição, cuja estatura, uma geração após sua morte, parece maior do que qualquer um jamais pensou enquanto ele ainda estava vivo, e cujos escritos cristãos são agora vistos como tendo status de clássicos… Eu duvido que alguém tenha conseguido compreendê-lo completamente”.                – John Stott

“Acredito que muitos que acham que nada acontece quando sentam ou se ajoelham com um livro devocional nas mãos achariam que o coração canta espontaneamente enquanto estão trilhando o árduo caminho da teologia.”                            – C.S.Lewis.

 

 Em 13 de novembro de 354, nascia em Tagaste um dos mais imponentes personagens da era cristã, o pensador que marcou a passagem da tradição patrística para a medieval, Agostinho de Hipona, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Cerca  de quatro anos antes nascia na Britânia seu principal oponente teológico,  o monge ascético Pelágio, um dos principais mestres da moral cristã do seu tempo. Esses dois gigantes, Agostinho e Pelágio, travaram o mais importante debate a respeito do livre-arbitrio e da graça de Deus. Enquanto Pelágio defendia que a salvação poderia ser alcançada por nossos próprios esforços, através do livre-arbitrio, Agostinho argumentava que nossa salvação depende necessariamente de Deus e da sua soberana graça. Os concílios eclesiásticos deram a vitória a Agostinho, mas, por incrivel que pareça, quase toda a Idade Média se mostrou semi-pelagiana. O debate voltou a ganhar visibilidade em uma nāo menos acalorada disputa no século 15, dessa vez entre o então monge agostiniano Martinho Lutero e o já famoso doutor da Igreja Herasmo de Hoterdan, o tema do debate era, uma vez mais, soberania e livre arbítrio. Lutero defendia “A justificação somente pela fé”, já Erasmo, tal como Pelágio,  atribuia muito poder ao nosso livre arbítrio, defendendo que depende também dos méritos a nossa salvação.  O duelo marcou a divisão da Igreja entre protestantes e católicos e mais uma vez acontece uma transição histórica, da Idade Média para a Moderna.

 A discussão parece nunca ter chegado ao fim e os gigantes irão continuar duelando, no entanto, no século XX ouvimos uma voz menos clerical, mas não menos lúcida.

 Em 29 de Novembro de 1898 nascia em Belfast, na Irlanda do norte, Clive Staples Lewis, filho de Albert J.Lewis (1863-1929) e Florence Augusta Hamilton (1862-1908). Lewis veio a se tornar um dos maiores escritores do século passado, seu talento tornou-se evidente ainda na infância, na casa de seus pais Lewis podia encontrar pilhas e mais pilhas de livros em quase todos os cômodos, foi o que lhe permitiu o encontro com um universo sem fim de escritores. Toda essa variada literatura formaram em Lewis um pensador cuja visão de mundo encontra poucos paralelos na história. Os filósofos gregos lhe deram a frieza e a precisão do argumento bem articulado; os medievais, uma arguta e penetrada  imaginação,  talvez uma das mais brilhantes do século XX; os grandes romancistas como Shakespeare lhe incutiram uma criatividade poucas vezes vista.
 Seu futuro já era de se esperar, tornou-se um notável erudito em literatura, lecionando nas universidades de Oxford e, mais tarde, Cambridge. Em 1930 converteu-se do ateísmo ao teísmo e deste ao cristianismo, ganhando notoriedade com a publicação de diversos livros e artigos na área da crítica literária e teologia, além de emblemáticos romances como a Trilogia Cósmica e O Grande Abismo que, além de serem histórias fantásticas, refletem com bastante expressão seus conceitos teológicos – isso para não mencionar as famosas Crônicas de Nárnia no gênero infantil. Lewis faleceu no ano de 1963, deixando um vasto legado literário. Desde sua morte até os dias atuais doutores de diferentes partes do mundo debruçam-se sobre suas obras no anseio de acompanhar o raciocínio do mestre. Neste breve texto – na condição de admiradores e não de doutores – iremos analisar a importância de toda a sua erudição literária e filosófica para a teologia. Recuperando o equilíbrio epistemológico de Lewis e retornando à antiga discussão sobre as doutrinas do Livre-arbitrio, Providência e Soberania Divina e de que modo se deve harmoniza-las. No entanto, antes de se passar ao conteudo propriamente dito, há pelo menos uma advertência a ser feita. Queria deixar bem claro que eu mesmo estou bastante consciente de que Lewis está muito mais pra crítica literária do que pra teologia , fica evidente que nesta área do conhecimento poderíamos usar outros nomes de muito maior expressão teológica, como Agostinho ou Tomás de Aquino. No entanto, dei a preferência a C.S.Lewis e isso, assim espero, é fácil de explicar. Quando Lewis se tornou cristão já era um literato formado, com graduações em inglês, história antiga e filosofia, além do que já lecionava na prestigiosa  Oxford. Mas foi somente a partir da sua conversão ao cristianismo que tudo o que ele aprendera começou a aganhar vida, foi o que mais tarde ele chamou de “reavivamento intelectual”, era a passagem para além da sua própria personalidade.

  Dessa experiência em diante Lewis nāo abdicou do acumulo de suas informações, mas aos poucos todas elas foram se harmonizando e formando um todo literalmente fantástico, a descoberta da teologia cristã foi para Lewis, em suas próprias palavras, “o despertar de um sonho”. Essa foi a transição de um escritor secular quase anônimo a um verdadeiro gigante da apologética cristã, cujo tamanho da compreensão do que é de fato o cristianismo o tornou um dos autores cristãos de comovisāo mais ampla dos últimos tempos. Acho que, por esse motivo, pode ser uma boa darmos uma olhadela em suas opiniões.

 
O Livre-arbítrio como argumento apologético e The Great Divorce: no tempo e fora do tempo



 “O  mal  moral  tem  sua  origem  no  livre-arbítrio  de nossa  vontade.’’                             – Agostinho, Sobre o  Livre-arbítrio.
“Liberdade: o dom por meio do qual nos assemelhamos mais ao nosso Criador e somos nós mesmos partes da realidade eterna. Entretanto você só pode vê-la pelas lentes do tempo […].” C.S.Lewis, The Great Divorce.

“[…]Mas a natureza eterna desse ser vivo não podia ser atribuída em toda a sua plenitude ao que é engendrado. Então, pensou em compor uma imagem móbil da eternidade, e, ao mesmo tempo em que organizou o céu, fez da eternidade que perdura na unidade essa imagem eterna que se movimenta de acordo com o número e a que chamamos tempo.”                         -Platão, Timeu.

Dizem-nos que falar sobre  livre-arbítrio é sempre se arriscar a ser polêmico ou desnecessário. Polêmico até posso admitir, mas desnecessário jamais. A matéria é de interesse totalmente prático, afinal todos nós fazemos distinção ética do que é certo e do que é errado, e desse ponto de vista os seres humanos são, não sem motivos, classificados como intelectual e moralmente responsáveis diante de suas ações. No entanto, essa perspectiva parece incluir a existência do livre-arbitrio como indispensável à natureza. Mas há muitas controvérsias dentro da filosofia, da metafísica e da teologia que parecem por em dúvida essa indispensabilidade. Como nosso assunto é teologia na obra de C.S.Lewis, vamos abordar a controvérsia dentro dos limites teológicos. O grande desafio que sempre se ergueu aos teólogos foi o de conciliar o conceito de liberdade com a clássica doutrina da onipotência e soberania divina,  a harmonia dessas doutrinas normalmente resulta em uma grande complicação: o problema do sofrimento.
  Usarmos C.S.Lewis é uma boa oportunidade de vermos pelas lentes de alguém que começou a desenvolver seus pensamentos sobre o livre-arbítrio a partir de suas experiências com o sofrimento que começaram na sua mais tenra infância. 

Em 23 de Agosto de 1908 morre Florence Augusta Lewis. A abrupta perda da mãe para o câncer torna a infância dos irmãos Lewis um tanto dolorosa, acrescenta-se a isso o temperamento um tanto ruim do pai Albert e uma deficiência na mão do ainda muito novo Jack – modo como C.S.Lewis era conhecido entre parentes e amigos. A dor da perda e o temperamento ruim do pai – agravado pela morte da esposa – tornam-se fator preponderante para o abandono da religião cristã na qual foi criado C.S.Lewis, mais tarde a leitura de escritores materialistas foi apenas uma fagulha em uma lenha que já estava a muito tempo incendiada. Anos depois, em seu caminho de volta ao cristianismo, uma das suas primeiras publicações foi justamente um livro cujo título era: O Problema do Sofrimento. 

  Nele, Lewis lida com o problema de conciliar um Deus bom e todo poderoso com a existência do sofrimento, afinal, por que um Deus bom e soberano permitiria a dor de suas criaturas?

 A resposta de Lewis a essa pergunta é que o sofrimento não é causado diretamente por Deus – apesar de ser usado por Ele – mas por suas criaturas dotadas de livre-arbítrio. O argumento de Lewis – levando em consideração a doutrina da queda- distingue:
1) O bem simples que vem de Deus;
2) O mal simples produzido por criaturas rebeldes;
3) A exploração do mal por parte de Deus, para seu propósito redentor, que produz
4) O bem complexo para o qual contribuem o sofrimento aceito e o pecado de que nos arrependemos.’1
  É claro que os amplos argumentos de Lewis a respeito do sofrimento não poderiam caber em um tão pequeno texto, nem é a minha intenção. Apenas pretendo deixar claro ao leitor que o livre-arbítrio na obra de Lewis normalmente surge nesse contexto apologético.  

Além do que, o assunto é  sem dúvida parte fundamental de seu pensamento, sua mente em termos teológicos pode chegar a surpreender muita gente que espera encontrar em Lewis mais um cristão liberal.  O livre-arbítrio em sua obra ganha contornos bem ortodoxos. Embora ele admita livre-arbítrio depois da queda – diferente de como pensavam os reformadores no século 16 – em O Problema do Sofrimento ele dá uma extraordinária contribuição ao diferenciar o livre-arbítrio do primeiro homem e a liberdade da posteridade. Com toda a sua fantástica capacidade imaginativa Lewis infere do relato de Gênesis e da tradição patrística que o homem paradisíaco não só possuía plena autoridade sobre as feras, mas sobre a sua mente e tudo o mais que lhe dizia respeito, de fato, sobre o próprio organismo, plenamente de acordo com Tertuliano,  segundo o qual, como resultado do pecado, “todo o nosso ser havia sido alterado, deixando sua saúde original e caindo em um estado de rebelião contra o criador” ‘2 . O primeiro homem seria, pois, uma espécie própria que entrou em extinção com o advento da Queda, deste modo, ele escreve: “Assim, o espírito humano, de senhor da natureza humana passou a simples hóspede em sua própria casa, ou até mesmo um prisioneiro” ‘3. Essa distinção de Lewis mostra com clareza sua proximidade com o pensamento tradicional a respeito do pecado e bastante afinidade mesmo com Lutero e sua ideia de livre-agência. Para Lutero o homem se torna, depois da Queda, escravo; para Lewis, prisioneiro. Não há diferença, pois, em que os dois admitem uma vontade escrava ou aprisionada – embora Lewis tenha sido enfático ao não concordar com a ideia de depravação total defendida pelos calvinistas ‘4.
 Nota-se, portanto, como já fora dito, que o livre-arbítrio na obra de Lewis quase sempre surge como argumento apologético, seja pra dar solução ao problema do sofrimento, seja para não fazer com que, no final das contas, Deus seja acusado de criar o mal. Em suas palavras:” A doutrina da Queda pelo livre-arbítrio afirma que o mal gera o combustível ou a matéria-prima para o segundo e mais complexo tipo de bem. O mal não é uma contribuição de Deus, mas do homem.” ‘5.
Além disso, o pensamento de Lewis acerca da liberdade também lança fora o perigo do fatalismo, o problema da origem do pecado e a dificuldade de se entender as passagens bíblicas acerca da responsabilidade do homem. Mesmo que não concordemos com Lewis, devemos admitir que esse argumento foi usado pela maioria dos Pais da Igreja na tarefa apologética. No entanto, não se pode confundir esse pensamento acerca do árbitro com o de Pelágio ou Erasmo, que o relacionavam quase sempre a termos soteriológicos. Não temos em C.S.Lewis mais um humanista preocupado em defender salvação por méritos, mas uma mente incansável em defender a fé que é comum a todos, o cristianismo puro e simples.
                              ***
Em The Great Divorce, no entanto, o tema é abordado em um contexto mais doutrinário, além de filosófico. Nesta obra C.S.Lewis se vale uma vez mais de seu incomparável talento para fábulas e alegorias.

 A trama se passa em um sonho, aonde o narrador-escritor se vê em uma viagem inacreditável, atravessando Céu e Inferno. Nesta viagem inesperada C.S.Lewis encontra-se com George Mcdonald, pastor presbiteriano e escritor escocês do século XIX, que tornar-se seu guia, além de mestre. Juntos eles tiram conclusões significativas sobre tudo o que veem, em especial trataremos aqui do diálogo fictício elaborado por Lewis que encontra-se nos dois últimos capítulos deste mesmo livro. Ali Lewis desenvolve de forma bastante profunda o seu pensamento acerca da Liberdade e do Tempo e estabelece uma relação fundamental entre os dois temas. Lewis parte do pressuposto platônico de que Deus é eterno e nāo se condiciona ao tempo por Ele criado, dada as devidas diferenças, o mesmo ponto de vista foi abraçado tanto por Santo Agostinho como por São Tomás, e em Lewis os argumentos são lançados exatamente nesses fundamentos e suas conclusões a respeito de nossa liberdade devem ser vistos sob esse aspecto, ou seja, Deus é atemporal e nós não, logo as postulações feitas a partir do ponto de vista divino não são as mesmas que se enquadram em nosso limite de tempo e espaço.
 Portanto, o livre arbítrio e a soberania divina que antes eu disse serem parte conflitantes da filosofia e da teologia, ganham dentro desse panorama uma explicação plausível: para nós, que estamos no tempo e sujeito às suas peculiaridades, torna-se seguro de se dizer sobre a difícil questão da liberdade, mesmo com respeito a salvação ou condenação eterna: “A escolha dos caminhos está à sua frente. Não há nada restrito. Qualquer homem pode escolher a morte eterna e os que fizerem essa opção vão tê-la” ‘6. Isso, levando em consideração a nossa percepção temporal, nesse sentido, a Liberdade só pode ser vista ou percebida através do Tempo, que funciona como uma espécie de lente: “uma cena de momentos que se seguem uns aos outros e você, em cada momento, fazendo alguma escolha que poderia ter sido diferente”. Mas se formos abordar a coisa do ponto de vista de Deus e analisarmos doutrinas como a da Predestinação ou o Universalismo nos colocaremos, inevitavelmente, de um ponto de vista fora do tempo, perdendo assim o conhecimento da liberdade que temos por experiência. 
Boa parte das aparentes contradições da Bíblia em relação ao livre-arbítrio e a soberania são solucionadas se tão simplesmente levarmos em consideração que pelo menos duas perspectivas diferentes podem estar sendo empregadas, a de Deus que é atemporal e a do homem cuja vida se limita ao movimento dos números do nosso relógio, que possui apenas 24hs.

E toda discussão teológica que trate de Livre-arbítrio e Soberania, deve considerar a realidade experimental além da teológica. Filósofos e teólogos dissertam sobre coisas profundas que muitas vezes estão além da nossa compreensão, mas isso não quer dizer que negligenciam a verdade. Um pastor fala com propriedade da Soberania de Deus e o carpinteiro, sentado no banco da Igreja, sabe que é livre para fazer escolhas, ambos estão certos e Deus não deixou de ser Deus. No argumento de C.S.Lewis podemos compreender Livre-arbítrio e Predestinação sem precisar acender uma fogueira e procurar um herege, é tudo uma questão de percepção. Mas essas coisas devem ficar um pouco mais claras no próximo tópico.
 
 Um Deus Atemporal: os primeiros passos na doutrina da Providência 

“Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” Apocalipse: 01-08

“A folha pendente da árvore não cai, nem os dois pardais vendidos por um asse caem, nem qualquer outra coisa acontece sem a providência e a vontade de Deus, quer se considere isso um detalhe ou se permita como detalhe.”             – Luis Molina, Concórdia 4.53.3.17

“Se Deus dirigi realmente o curso dos acontecimentos, Ele então governa o movimento de cada átomo a cada momento. Nem um pardal cai por terra sem sua permissão.  A “naturalidade” dos eventos naturais não consiste, de alguma forma, em estar fora da providência de Deus, mas consiste em sua interligação mútua dentro de um espaço-tempo comum, de acordo com o padrão estabelecido das “leis”.”  – C.S.Lewis, Sobre as Providências.

 “Todo esse problema de predestinação, livre-arbítrio e mérito encontra-se na questão da providência.” – Ulrich Zuínglio 

   
A Bíblia diz que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, mas até que ponto podemos classificar a palavra ‘todas’?

  Nós sabemos que certamente se refere não só às coisas boas, mas também aos sofrimentos, as perdas e às dores, enfim, todas as coisas. Mas dentro de nossa perspectiva temporal em qual período ou tempo elas se organizam em nosso favor? Todas as coisas que nos cercam no nosso presente, ou também inclui o nosso passado e futuro?

  Todas essas perguntas e as respostas que delas devem vir pertencem à doutrina da providência e a melhor maneira de aborda-la do ponto de vista cristão é levando em consideração as passagens da Bíblia. As escrituras nos ensinam que Deus não está sujeito ao tempo e é sobre esse fundamento que C.S.Lewis constrói seus argumentos, eles podem  ser vistos no segundo apêndice do livro Milagres, sob o título: A respeito das providencias especiais; e no capítulo cinco de Cristianismo Puro e Simples.
 Como já dizia o reformador alemão Ulrich Zuínglio, boa parte do problema filosófico e teológico envolvendo o livre-arbítrio e a soberania encontra-se na questão da providência ‘8. A primeira coisa que deve nortear a nossa mente é que Ele, nosso Senhor, é o Alfa e o Ômega e tudo que provém dEle não se sujeita à nossa noção de espaço e tempo, na obra de Lewis nāo é diferente, ele nos ensina: “todos os eventos físicos e todos os atos humanos estão presentes para Ele num eterno Agora. […] Deus, neste sentido, não criou o universo há muito tempo, mas ele o cria neste minuto, a cada minuto.’’ 

 C.S.Lewis nos fornece uma imagem ainda mais didática. Imaginemos que eu encontre uma folha e nela uma linha preta ondulada que segue de uma extremidade à outra e que eu, deliberadamente, resolva escrever outras linhas – vermelha, por exemplo. Vamos imaginar então que a primeira linha, que já estava escrita, seja consciente. Mas ela não tem consciência ao longo de todo o seu trajeto, mas em cada ponto de seu percurso. Ela, de fato, movimenta-se da esquerda para a direita e retém o ponto A apenas como memória ao alcançar B, incapaz de tornar-se consciente de D até deixar C. Vamos atribuir a essa linha preta livre-arbítrio, de forma que foi ela mesmo que escolheu sua forma ondulada especial e a direção que está a seguir. Apesar de ela não saber o que fazer em F até deixar o ponto E, eu, que estou com o papel na mão e sei todo o seu percurso, escrevo as linhas vermelhas de modo a considerar todo o trajeto da linha preta, de forma que ela irá sempre encontrar com minhas linhas vermelhas ao longo de sua trajetória. Em resumidas palavras, essa é a forma como Lewis enxerga o cenário da atuaçāo da Providência, a linha preta representa uma criatura dotada de livre-arbítrio, as vermelhas os acontecimentos materiais e o autor do desenho representa Deus. É claro que o exemplo de Lewis seria mais real se o autor das linhas vermelhas também tivesse criado tanto o papel quanto o próprio padrão utilizado e, aliás, também deveríamos levar em conta outras centenas de milhares de linhas pretas e não uma apenas.    O conjunto de linhas pretas e o entrelaçamento com as linhas vermelhas deveriam formar um desenho artisticamente impressionante, de modo que, na composição do todo, as linhas pretas dependeriam da formação das linhas vermelhas. A liberdade de arbítrio previamente concebida pelo provedor das providências é, grosso modo, o cenário da atuaçāo divina.’9
 Mas essa é apenas uma imagem que nos introduz à doutrina propriamente dita. Aprendemos que as coisas que cooperam para o nosso bem emanam de Deus e não se limitam ao nosso ponto de vista do tempo.Uma grande parte de nossas orações, se forem devidamente analisadas, exigem uma intervenção de Deus que antecede não só o nosso ato de fé como muitas vezes o nosso próprio nascimento, noutras os fundamentos precisariam ser lançados antes da fundação do mundo. Embora numa sucessão temporal pareça impossível, para Deus, que olha da eternidade, tanto quem faz a oração quanto o milagre ao qual pede já estavam tão presentes na criação do mundo como estão agora e estarão daqui a um milhão de anos. Deste modo “ao meio-dia podemo-nos tornar causas parciais de um evento ocorrido às 10 da manhã” ’11.

A Providência funciona como mediadora entre o conceito que temos de liberdade e soberania justamente no ponto em que dela inferimos que Deus é atemporal e que intervém em nossas vidas de acordo com seus planos e propósitos. Suas intervenções chegam a nós em um determinado tempo, mas fluem dEle da eternidade. Poderíamos dizer que Ele conduz todas as coisas através de sua Providência para a realização de seus planos. Lembremos do exemplo das linhas pretas e vermelhas na composição de um desenho completo redigido com maestria. Nós continuamos livres e Ele soberano. É claro que nós já aprendemos que nossa liberdade tornou-se restrita pela nossa própria natureza corrompida e que mesmo C.S.Lewis admite que tornamo-nos escravo desta. E é precisamente por isso que a Soberania por meio da Providência precisa atuar. Falando em uma linguagem bíblica, se Deus não nos chamar, nós não iremos a Ele. Foi o que aconteceu particularmente na conversão de Lewis.
Se a doutrina da Providência permiti-nos segurança na oração, com respeito a obra redentora de Jesus Cristo, Lewis sentiu na pele que dela – a Providência por meio da Redenção – não podemos esperar a tão desejável “independência” de nossa vontade, qualquer segurança ou o mínimo de estabilidade. “Há armadilhas por toda a parte” ’12 diz Lewis em sua autobiografia. Foi muito provavelmente tendo esses pressupostos em mente que ele registrou em “Surpreendido pela Alegria” o modo como Deus usou o apologista cristão G.K.Chesterton na sua conversão: “Parece até que a Providência, ou uma causa segunda de uma espécie bem obscura, supera nossas inclinações quando decide aproximar duas mentes” ’13. Chesterton viria a se tornar peça fundamental no dramático processo da conversão de C.S.Lewis, mas esse assunto já faz parte do próximo tópico.
 
 Compelle Intrare: Surpreendido pela Soberania


“Dê-me graças [Ó Senhor] para fazer o que ordenas, e ordena-me a fazer o que tu queres! Ó santo Deus (…) quando teus mandamentos são obedecidos, é do Senhor que recebemos o poder de obedecê-los’’ – Santo Agostinho (Tagaste, 13 de novembro de 354 – Hipona, 28 de agosto de 430)
 “A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e sua coerção é nossa libertação.”       – C.S.Lewis, Surpreendido pela Alegria.”

Bom, neste momento iremos analisar, de uma forma mais especifica, como Lewis veio a acreditar em Jesus Cristo e de que forma isso se deu. Do ateísmo ao teísmo e deste ao cristianismo, em quais circunstancias se realizou aquilo que, para muitos, parecia impossível: a queda de um dos mais empedernidos ateus do século XX.
Desde a mais tenra infância Lewis nunca lidou muito bem com a ideia de qualquer autoridade que roubasse sua privacidade ou sua segurança, alguns de seus biógrafos relacionam isso ao relacionamento ruim que ele teve com o pai. Quando ainda era ateu, a ideia de um Deus pessoal, como ensinava o cristianismo, lhe causava desprezo, “nenhuma palavra do meu vocabulário despertava ódio mais profundo do que a palavra interferência”. O Antigo e o Novo Testamento “colocavam no centro o que a mim parecia ser um Intruso transcendental” ’14.
Lewis, de fato, ansiaria em se manter o mais longe possível dessa fé, não queria nada, de nenhuma espécie, roubando sua liberdade. Apesar de isso ser um motivo emocional e pessoal, Lewis fez de tudo para que seu intelecto também criasse anticorpos à essa crença, com a leitura de escritores materialistas ele, de fato, vinha conseguindo se manter em defesa durante um bom tempo. O que ele não contava é que, fizesse o que fizesse, quanto mais ele se aprofundava em suas áreas de pesquisa acadêmica – que incluíam história, filosofia, literatura inglesa e medieval – mais ele se deparava com escritores que, apesar de serem muito inteligentes, tinham um leve defeito, eram crentes. E todos os materialistas começaram a parecer meio “raquíticos” em comparação a autores cristãos como Dante e Milton, além dos mais contemporâneos como George Mcdonald e G.K. Chesterton. Lewis chegou mesmo a dizer, anos mais tarde, que “um jovem que deseja continuar sendo um ateu convicto jamais poderá ser suficientemente cauteloso quanto às suas leituras. Há armadilhas por toda parte.” ’15
O Deus que se apresentava, de forma bastante inconveniente, através das leituras de Lewis, também se manifestaria através de suas novas amizades na universidade de Oxford e por muitos outros meios. Foi nesta mesma universidade que Lewis viria a conhecer Owen Barfild que atacou com bastante contundência a incoerência lógica de seu ateísmo. Ao entrar para a Faculdade de Inglês no Magdalen College, em Oxford, Lewis conheceu mais dois cristãos, Hugo Dyson e J.R.R. Tolkien. Estes homens tornaram-se amigos íntimos dele e o influenciaram profundamente. Os tempos de incrédulo estavam chegando ao fim, Lewis se sentia exatamente como uma presa que se põe em desespero na fuga de seu predador natural, era um período que iria delinear uma grande transição. Uma verdadeira mudança de paradigmas estava prestes a acontecer, no período entre 1928 e 1931 duras e contundentes provas em favor da existência de Deus e da veracidade da Bíblia começavam a imergir de onde Lewis menos esperava, a presa estava prestes a ser alcançada, mas “antes de Deus fechar o cerco sobre mim”, relembrou Lewis em Surpreendido pela Alegria, “foi-me oferecido aquilo que hoje me parece um momento de escolha absolutamente livre. […] Senti, ali e então, que me era dada a possibilidade de escolha. Eu poderia abrir a porta ou deixá-la trancada; poderia tirar a carapaça ou conservá-la. […] Escolhi abrir, tirar a carapaça, afrouxar as rédeas. Digo “escolhi”, mas não me parecia realmente possível fazer o contrário.” ’16
É neste ponto paradoxal que desejava chegar, enfim a tênue linha que separa liberdade humana e soberania divina, uma divisória que necessariamente não existiu para Lewis. Até aqui acompanhamos alguns traços biograficos a partir de Surpreendido pela Alegria, mas antes de avançarmos no assunto veremos que em O Regresso do Peregrino soberania também é um tema corrente.  

Essa  foi a primeira publicação de Lewis depois de convertido, a trama descreve a busca de John – protagonista da saga alegórica- para chegar à ilha encantada, reflexo da busca do próprio Lewis “por uma experiência particular recorrente” que mais tarde ele veio a chamar de alegria. No caminho da ilha John encontra diferentes tipos de filosofias, a maioria delas afirmava que tal ilha, de fato, não existia. Outras afirmavam que existia, mas seria impossível, ou pouco recomendável, o caminho que leva até ela. John, no entanto, não podia conceber duas coisas: que a ilha, de fato, não existisse e que o Proprietário – alegoria de Deus -, do qual fugira a vida inteira, fosse real. Mas não havia mais saída. As alegorias da Razão, da Sabedoria e da história mostravam a John a ilusão de todas as filosofias que negavam a existência da Ilha e do Proprietário. Jhon reluta em acreditar, mas diante da incapacidade de continuar sua jornada com as próprias forças ele se inquieta cada vez mais e “na amargura de sua alma, ele olhou para cima novamente, dizendo: Ajuda, ajuda, eu quero ajuda!” e então ele percebe “eu estava orando!”[…] “Em apenas uma noite, o Proprietário – chame-o pelo nome que quiser – tinha voltado a fazer parte do seu mundo e  havia o ocupado, preenchendo-o plenamente, sem deixar livre um espaço se quer. (…) E todas as coisas apontavam para uma única palavra: Capturado.” ’17
A experiência de Lewis foi semelhante, ou melhor, idêntica. Sua conversão ao cristianismo não se deu de forma imediata, mas após muito relutar. A fuga de Lewis desse Ser transcendental que lhe roubava a privacidade foi um longo e dramático processo, uma fuga que teve um desfecho inevitável, bastante similar ao de Jhon: “Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi enfim […] admitindo que Deus era Deus, ajoelhei-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante dos convertidos de toda a Inglaterra.” Ele se auto descreveu como “o Filho Pródigo que afinal caminhava para casa com as próprias pernas. Mas quem é que pode respeitar de fato o Amor que abre os portões ao pródigo que é arrastado para dentro esperneando, lutando, ressentido e girando os olhos em torno, à procura de uma chance de fuga? As palavras compelle intrare, forçá-los a entrar, foram tão violentadas por homens impiedosos que chegamos estremecer diante delas; mas, entendidas de forma correta, determinam a profundidade da misericórdia divina. A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e sua coerção é nossa libertação.” ’18
 Como podemos ver, em suas duas auto biografias, Lewis tinha um conceito de soberania muito forte, mesmo Agostinho um dos maiores defensores da graça soberana se acautelou em usar a palavra coerção com referencia à ação de Deus em nossa conversão. Ele porém, tal como Agostinho, acreditava, em algum nível, na liberdade e no arbítrio do homem. Como ele entedia isso já foi dito no primeiro tópico desse texto, é tudo uma questão de percepção temporal. Ele nunca esteve disposto a fazer uma escolha entre o fatalismo e o humanismo. Como ele mesmo diria, nem o Norte e nem O Sul. Jack (como costumava ser chamado pelos amigos) estava ciente de um caminho em que a soberania e a liberdade se encontravam, tornando-se doutrinas diferente de um mesmo credo. Talvez ele visse essa aparente contradição entre teoria e pratica, como Ranson – o personagem principal de sua Trilogia Cósmica. 

Em Perelandra, Elwin Ranson se vê diante da responsabilidade de enfrentar o Não-Homem – aquele que instigava a Queda no Gênesis mitológico de Vênus. Ranson nota que enfrentar o Não-Homem lhe parecia literalmente impossível, mas de alguma forma ele sabia que iria ser feito. Isso já tinha acontecido antes com ele, e “o mesmo acontecia agora […] poderia implorar, chorar ou se rebelar, poderia amaldiçoar ou adorar, cantar como um mártir ou blasfemar como um demônio. Não fazia a menor diferença. […] O ato futuro já estava ali, fixo e inalterável, como se ele já o tivesse executado. […] Talvez fosse possível dizer que o poder da escolha tinha sido simplesmente afastado e substituído por um destino inflexível. Por outro lado, talvez se pudesse dizer que Ranson tinha sido libertado […] para uma liberdade inexpugnável. Por mais que se esforçasse, Ranson não conseguia ver nenhuma diferença entre essas duas formulações.” ’19
 Essa é provavelmente a forma como o próprio Lewis via o assunto. Ranson carregava muitos traços de seu criador. Talvez depois de convertido, experimentado e estudado nas doutrinas teológicas, ele enfim tenha chegado à mesma conclusão que seu personagem de ficção cientifica. Talvez Lewis pudesse dizer o mesmo de si próprio quando disse que para Ranson enfim “A predestinação e a liberdade eram aparentemente idênticas.” e que  “Ele já não conseguia ver o menor significado nos muitos argumentos que ouvira sobre o assunto.” ’20

Referências:
Sobre o Livre-arbítrio:
‘1- O Problema do Sofrimento, editora Vida. pg.126
‘2- Sobre os Espetáculos, 2. Ver  Justo González, Uma breve história das doutrinas cristãs, editora Hagnos, pg.116.
‘3- O Problema do Sofrimento, editora Vida. pg. 94
‘4- Ibid., pg 77. Aonde  se lê sobre a Depravação Total: “Não creio nessa doutrina”.
‘5- Ibid., pg 96
‘6- O Grande Abismo, editora Vida. pg.143
‘7- Ibid.
Sobre a Providência:
‘8- Ver Teologia dos Reformadores, pg.124
‘9- Sobre a Providência, editora Vida. pg.268-269.
’10- Ibid. pg. 270.
’11- Ibid. pg.272.
’12- Surpreendido pela Alegria, editora Ultimato.  pg. 171
’13- Ibid. pg. 170
Sobre a Soberania:
’14- Surpreendido pela Alegripe, editora Ultimato. pg.155
’15- Ibid. pg. 171
’16- Ibid. pg. 198-199
’17- O Regresso do Peregrino,Icthus Editorial. pg. 223-224/ 229-230
’18- Surpreendido pela Alegria, editora Ultimato. pg. 202-204
’19- Perelandra, Martins Fontes. pg.198
’20- Ibid. pg.199.

A Nacionalidade Desconhecida de C.S.Lewis

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por William Estaquio

À medida que C. S. Lewis (1898–1963) e suas obras tornam-se mais conhecidos pelo mundo, por um público de notável diversidade etária, social e religiosa, torna-se também mais evidente um fato importante sobre o mesmo autor. Muito embora Lewis tenha nascido na Irlanda, em Belfast, e crescido na mesma cidade ou nas cercanias, no condado de Down (hoje, na Irlanda do Norte), sua nacionalidade permanece amplamente desconhecida ou obscurecida. À primeira vista, é grande a possibilidade de se pensar estar tratando de um autor inglês. Não é diferente com o professor J. R. R. Tolkien (1892–1973), conhecido pela extensa série de livros sobre a fictícia Terra-Média, dentre os quais destacando-se O Hobbit e O Senhor dos Anéis, que, muito embora tenha vivido a maior parte da vida na Inglaterra, e provindo de uma família de forte tradição inglesa, nasceu na África do Sul e ali viveu por algum tempo.

Tomemos uma obra que projetou a imagem de Lewis para fora das fronteiras da Grã-Bretanha. A versão hoje conhecida de Cristianismo Puro e Simples (diversas vezes citada como a obra religiosa mais influente do século 20) é, na verdade, uma versão editada do material resultante das quatro séries de palestras radiofônicas proferidas por Lewis durante a Segunda Guerra Mundial. Anteriores a esta versão final, foram publicados três folhetos separados, a partir de ligeiras edições das mesmas palestras: The Case for Christianity(em 1942), Christian Behaviour (em 1943) eBeyond Personality (em 1944). Estas publicações não satisfizeram Lewis, pois careciam, para ele, de maior clareza de expressão e de enfoque. Para os leitores, os três panfletos eram, na verdade, obras independentes, e não estágios de uma mesma argumentação entrelaçada. De fato, eu propriamente, na primeira ocasião em que descobri Beyond Personality, julguei tratar-se de uma obra separada de Lewis. Portanto, não é difícil imaginar a facilidade com que a mesma ideia foi concebida nos leitores da década de 1940. Além disso, uma das séries foi inteiramente omitida (e eis a razão por que havia apenas três folhetos). Lewis, então, passou a pensar em como poderia criar um único livro; um livro que desenvolvesse uma defesa coerente do cristianismo, unindo e vinculando, assim, todo o material por ele desenvolvido para suas quatro séries de palestras. O resultado foi a versão hoje conhecida deCristianismo Puro e Simples (de 1952), uma versão editada do material do tempo de guerra.

Pois bem, a fama de Lewis como apologista cresceu sobremaneira na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, muito embora seu sucesso neste campo tenha obscurecido outras conquistas consideráveis de sua vida acadêmica. Por exemplo: em dezembro de 1941, ele deu início a uma série de três palestras sobre os temas de O paraíso perdido, de John Milton. O circuito de conferências foi ministrado no University College, no País de Gales, e esta série foi por Lewis vista como um “ensaio preliminar” para um livro mais alentado. A obra ampliada, de fato, foi publicada em outubro de 1942 pela Oxford University Press, com o títuloA Preface to “Paradise Lost”. É um estudo clássico, e permanece em destaque nas listas de leituras sobre a obra-prima de Milton. O livro, que foi dedicado a Charles Williams (1886–1945), amigo querido de Lewis e também parte dos Inklings, foi por este apresentado como uma introdução daquela obra de Milton (primeiramente publicada em 1667) a leitores que poderiam considerá-la “afastadora, inacessível ou simplesmente incompreensível”. É, sem dúvidas, um de seus mais notáveis livros acadêmicos.

Todavia, o aspecto mais importante deste cenário é a forma com que a imagem de Lewis foi projetada por sua fama crescente. Ele não foi amplamente conhecido como um acadêmico ou apologista irlandês, e mesmo alguns irlandeses pareciam desconhecer sua “origem comum”. Alister McGrath, um dos mais recentes biógrafos de Lewis, observa que na época em que morou na Irlanda, na década de 1960, ele se recorda de que quando alguém, casualmente, referia-se a Lewis, estava se referindo a um escritor “inglês”. É verdade que não é atípico que pessoas radicadas fora de seu país natal passem a ter sua verdadeira nacionalidade esquecida ou desconhecida. É um fenômeno muito corriqueiro. Vê-se amiúde, por exemplo, atores conhecidos sobretudo por seus trabalhos com a indústria cinematográfica norte-americana que provieram, na verdade, de outros lugares do globo. Porém, à medida que prossegue-se em conhecer Lewis, pode ser neste encontrada uma profunda ligação com sua terra natal. Ele jamais perdeu de vista suas raízes irlandesas. Numa carta a Arthur Greeves, um amigo de longa data, em março de 1915, Lewis com carinho evocou suas recordações de Belfast. Ele recordou-se do “distante murmurar dos ‘estaleiros’, a grande extensão de Belfast Lough, Cave Hill Mountain e os pequenos vales, prados e colinas em volta da cidade”. A Irlanda de Lewis era muito mais que suas “suaves colinas”, muito embora sejam estas uma de suas marcas distintivas. Sua cultura possuía uma enorme paixão por histórias, o que se evidenciava em sua mitologia, nas narrativas históricas e em seu amor pela língua. No final da década de 1950, Lewis ainda se referia regularmente à Irlanda como sua “terra natal”, chamando-a de “meu país”. Chegou mesmo a optar por lá passar sua tardia lua-de-mel com Joy Davidman, em 1958. Lewis jamais esqueceu-se da beleza natural de sua terra natal, cujo ar suave e úmido havia ele inalado. A própria linguagem de Lewis repercutia suas origens. Ele usava com frequência, em suas correspondências, expressões ou gírias anglo-irlandesas derivadas do gaélico (a língua oficial da Irlanda). Muito embora a voz de Lewis, em suas palestras radiofônicas na década de 1940, possuísse traços típicos da cultura acadêmica de Oxford do seu tempo, sua pronúncia de algumas palavras ainda denunciava uma sutil influência de suas raízes de Belfast.

James Joyce (1882–1941) é um exemplo semelhante ao de Lewis. Joyce nasceu em Dublin, e é conhecido por ser um grande romancista, contista e poeta irlandês. Joyce viveu fora de seu país natal pela maior parte da vida adulta, mas é reconhecido que suas experiências irlandesas foram essenciais para sua obra, fornecendo-lhe toda a ambientação e boa parte de sua temática. Uma de suas obras mais conhecidas, de fato, é o volume de contos Dublinenses/Gente de Dublin (1914), que chegou a ser sugerido por Ernest Hemingway (1899–1961), certa vez, para um jovem escritor que lhe pedira sugestões de obras que a ele próprio, como iniciante na literatura, poderiam ser úteis. Hemingway elaborou, então, uma pequena lista com quatorze livros e mais duas curtas histórias para o jovem — dentre os quais Madame Bovary, de Gustave Flaubert, Ana Karenina e Guerra e Paz, de Leo Tolstoy, Os Irmãos Karamázov, de Fyodor Dostoyevsky, e O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brönte. O autor de Ulisses foi considerado por Ezra Pound como um dos mais eminentes poetas do imagismo, participando dos primórdios do modernismo poético em língua inglesa. Em contraste com C. S. Lewis, todavia, James Joyce é, ainda hoje, considerado um dos maiores nomes da literatura irlandesa, enquanto que aquele não possui nenhuma entrada nas 1.472 páginas do supostamente definitivoDictionary of Irish Literature (1996).

Uma questão importante, contudo, é que havia uma marcante distinção entre Lewis e outros conhecidos escritores irlandeses. Ao contrário de alguma parte deles, Lewis não descobrira sua inspiração literária nas questões políticas e culturais que giravam em torno da luta de seu país pela independência em relação à Inglaterra. Ele a descobrira, todavia, primariamente nas paisagens da Irlanda. Lewis nascera num contexto em que predominavam o ressentimento social e político, assim como exigências por mudanças. A Irlanda do Norte e a República da Irlanda eram ainda unidas, porém as tensões que provocariam esta divisão artificial da ilha eram muito evidentes. Certas informações são necessárias. A Irlanda é a segunda maior das Ilhas Britânicas (depois da Grã-Bretanha), a terceira maior na Europa e a vigésima no mundo. Politicamente, ela é dividida entre a República da Irlanda, cobrindo cinco-sextos da ilha, e a Irlanda do Norte (uma parte do Reino Unido), cobrindo a área restante e localizando-se no nordeste da ilha. Historicamente, a Irlanda Gaélica surgiu no século primeiro, durando até o início do século 17. A ilha foi cristianizada à partir do século quinto. Após a invasão dos normandos, no século 12, a Inglaterra reivindicou sua soberania sobre a Irlanda. Todavia, o governo inglês não se estendeu sobre toda a ilha senão a partir da conquista Tudor dos séculos 16 e 17. Isso levou a uma colonização por parte de ingleses e escoceses, provocando nos irlandeses desapossados um grande e profundo ressentimento social e político contra os invasores. Os colonizadores protestantes diferiam dos irlandeses católicos quanto à língua e religião. “Fazendas protestantes” se desenvolveram durante o século 17, sob a liderança de Oliver Cromwell, sendo como “ilhas protestantes num mar irlandês católico”. Nos anos 1690, um sistema de governo protestante inglês foi designado para materialmente desavantajar a maioria católica e os dissidentes protestantes, sendo estendido durante o século 18. Esta organização protestante estabeleceu-se, então, a partir da deposição da classe dominante irlandesa. Em 1801, com os Atos de União (ou a Lei da União), a Irlanda tornou-se parte do Reino Unido, sendo governada diretamente de Londres. Muito embora fossem uma minoria numérica, os protestantes, radicados nos condados de Down e Antrim, no norte, e na cidade industrial de Belfast, dominaram a vida cultural, econômica e política da Irlanda.

Isso, contudo, mudaria em breve. Na década de 1880, movimentos por um governo autônomo da Irlanda se desencadearam, sobretudo, por influência de Charles Steward Parnell (1846–1891) e outros, que chamaram tal governo de “Home Rule”. Na década de 1890, o nacionalismo irlandês começou a ganhar força. Uma sensação nova de identidade cultural irlandesa foi criada, injetando também nova energia no movimento pelo “Home Rule”. Um fato de muita importância foi que o movimento passou a considerar também a língua inglesa um agente de opressão cultural, o que resultou na fundação, em 1893, da Liga Gaélica, a fim de promover o estudo e uso da língua irlandesa. Também houve forte oposição a todas as formas de influência inglesa na Irlanda, inclusive jogos como o rúgbi e o críquete. Este clima, portanto, não deixou de afetar também a família de C. S. Lewis. Uma vez que a demanda por um governo nacional autônomo foi se fortalecendo e ganhando credibilidade, muitos protestantes sentiram-se ameaçados, temendo, além da erosão de seus privilégios, um confronto civil. Dessa forma, a comunidade protestante de Belfast, no início da década de 1900, era bastante insular, evitando contato social e profissional com seus vizinhos católicos onde isso fosse possível. De fato, o próprio irmão mais velho de C. S. Lewis, Warren, recordou-se mais tarde, numa biografia do irmão não publicada, que ele mesmo (Warren) jamais conversara com um católico de seu círculo social antes de ingressar no Royal Military College em Sandhurst, em 1914. Uma tendência hostil e segregacionista  para com os católicos foi por Lewis adquirida sendo ainda uma criança de peito. E, de fato, Alister McGrath também pontua que muitos consideravam Lewis, e ainda o consideram, alguém que se situa fora da verdadeira identidade cultural irlandesa devido às suas raízes na província protestante de Ulster (área que, hoje, corresponde aos condados da Irlanda do Norte, mais três condados hoje parte da República da Irlanda: Cavan, Donegal e Monagham).

As tensões e questões sociais e políticas, portanto, que rodeavam a vida de Lewis em seus primeiros anos, não serviram de grande inspiração para sua produção literária. O que realmente lhe serviu de inspiração foi a paisagem física da Irlanda. Esta foi, inquestionavelmente, uma das influências que moldaram a fértil imaginação de Lewis. A Irlanda, de fato, é também conhecida como a “Ilha Esmeralda”, exatamente por seus elevados níveis pluviométricos e suas névoas, o que lhe proporcionam um solo úmido e uma relva verde viçosa. E é certamente interessante que Lewis tenha transferido, mais tarde, a sensação de confinamento pela chuva que ele sentia em “Little Lea” (como chamavam a “Leeborough House”, casa para onde a família Lewis se mudou em 1905) a quatro criancinhas, presas na casa de um velho professor, incapazes de explorar o exterior por causa da “incessante chuva, tão densa quando se olhava pela janela que não se podia ver nem as montanhas e as florestas e nem mesmo o regato do jardim”. Talvez, e muito provavelmente, a casa do professor em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa tenha sido concebida com base em Little Lea.

Aquelas paisagens, todavia, como Lewis declarou, moldaram também a prosa e a poesia de muitos antes dele. Talvez, acima de tudo, o clássico de Edmund Spenser (1552–1599), The Faerie Queene, obra elisabetana que Lewis apresentava com frequência em suas aulas em Oxford e Cambridge. Para Lewis, essa obra clássica de “demandas e andanças e insaciáveis desejos” refletem claramente os muitos anos vividos por Spenser na Irlanda. Era impossível não perceber “o ar suave e úmido, a solidão, as vagas formas da colina” ou “os emocionantes crepúsculos” da Irlanda. Para Lewis, o período subsequente na vida de Spenser, agora na Inglaterra, o levou à perda de seu poder de imaginação. “Os muitos anos vividos na Irlanda”, escreveu ele, em sua obraStudies in Medieval and Renaissance Literature, “estão por trás da poesia superior de Spenser, e os poucos anos vividos na Inglaterra estão por trás de sua poesia inferior”.

Por fim, conclui-se que toda a familiar imaginação e a incrível produção literária, poética, e acadêmica de C. S. Lewis não podem ser separadas de suas origens irlandesas, que o marcaram de forma profunda e inexorável. “Os suaves contornos dos montes e das colinas” do condado de Down estão por trás de toda a sua experiência de perplexidade diante de algo indescritível e inalcançável, um anseio profundo por um objeto além do alcance. A projeção de Lewis como uma figura inglesa, embora resultado esperado de sua crescente popularidade e das associações naturais, embora imprecisas, como o ambiente acadêmico, cultural, religioso e social da Inglaterra do século 20, constitui-se de um impedimento inesperado para um maior alcance no entendimento de sua persona. Lewis foi alguém que foi inserido num ambiente estranho e hostil (ao menos para ao garotinho que, pela primeira vez, pisava em solo inglês, como descrito em sua auto-biografia Surpreendido pela Alegria), e talvez não imaginasse que ali faria ele sua vida. Muito provavelmente, jamais imaginara ele que, como um cidadão inglês, teria uma vida tão “romântica” e interessante, tão curiosa e inesperada, como as histórias que o entretinham no “velho lar”, o país natal. Lewis lutou na Primeira Guerra, tornou-se professor em Oxford, catedrático em Cambridge, conheceu Joy Davidman e viveu experiências felizes e singelas ao seu lado. Mas jamais fora o vínculo e ligação profundos rompidos. Para se entender Lewis, deve-se saber de suas origens. Sem a Ilha Esmeralda, porção enorme de sua obra se perde, e a influência que têm causado elas por mais de um século desaparece. Sua terra natal não lhe serviu de mero “lugar de nascimento”, mas de uma base encantadora para sua vida imaginativa sem par.

Referências Bibliográficas:

McGrath, Alister. A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia. São Paulo: Mundo Cristão, 2013.

Obras de C. S. Lewis:

A Preface to “Paradise Lost”. London: Oxford University Press, 1942.

Studies in Medieval and Renaissance Literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

The Collected Letters of C. S. Lewis. Edited by Walter Hooper. Vols. 1 & 2. San Francisco: HarperOne, 2004 e 2005.

Antony Flew fala de C.S.Lewis

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Texto por Agnon Fabiano:

Antony Flew, considerado o principal filósofo dos últimos cem anos, passou mais de cinquenta defendendo o ateísmo. Nesse período, ninguém conseguiu expor as teorias do ateísmo de forma tão completa, original e sistemática como ele fez. O nome de Flewpassou a ser associado ao moderno ateísmo em 1950, com o ensaio entitulado Theology and Falsification, que se tornou a publicação mais reimpressa do século XX. No entanto, ao continuar investigando o tema, ele reviu seus conceitos.

Flew, participou do Socratic Clube, um grupo que era, realmente, “o centro do que ainda havia de vida intelectual de Oxford no tempo de guerra. O clube era um fórum onde aconteciam acalorados debates entre ateístas e cristãos”. De 1942 a 1954, seu presidente foi C. S. Lewis. A exortação “devemos seguir o argumento até onde ele nos levar”, atribuída aSócrates, era o “brasão” do clube e foi citado porLewis na primeira edição do Socratic Digest.

Em seu livro “Deus existe”, Flew dá testemunho da coragem, da honestidade e da intelectualidade de C. S. Lewis. Diz ele que “é de fato um paradoxo que meu primeiro argumento em favor do ateísmo tenha sido originalmente apresentado em uma reunião do Socratic Club presidida por um dos maiores defensores do cristianismo do século passado, C. S. Lewis. [….] Lewisfoi, certamente, o mais eficiente defensor do cristianismo da segunda metade do século XX. [….] Muitos dos maiores ateístas entraram em conflito comLewis e seus companheiros cristãos”.

Flew sistematizou a desenvolveu a maior parte dos fundamentos do ateísmo. Por essa razão, atualmente ele sofre duras críticas por parte dos ateus, pelo fato de ter “revisto seus conceitos” e, hoje, declarar que existe um Deus.

Fui criado para outro mundo

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Texto de Agnon Fabiano.

C. S Lewis
O Peso de Glória

“Se descubro em mim um dese­jo que nenhuma experiência deste mundo pode satis­fazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.” (CSL)

Quase toda a educação procura silenciar essa voz tímida e persistente dentro de nós: quase todas as filosofias dos nossos tempos foram elaboradas para convencer-nos de que o bem do homem encontra-se nesta terra. Contudo, é curioso como certas filosofias de progresso ou evolução criativa acabem por atestar, relutantemente, que o nosso verdadeiro alvo esteja em outro lugar.

Note a maneira como pretendem convencê-lo de que a terra é seu lar. Começam tentando persuadi-lo de que a terra pode transformar-se em céu, driblando assim a nossa sensação de exílio. Depois dizem que esse feliz acontecimento situa-se num futuro ainda muito distante, driblando assim o nosso conhecimento de que nossa pátria não está presente, aqui e agora. Finalmente, para que o nosso anseio por alguma coisa transtemporal não nos acorde, estragando tudo, valem-se da retórica à disposição, para conservar bem distante da nossa mente o pensamento de que, ainda que a felicidade que nos prometem pudesse ser uma realidade na terra, cada geração, inclusive a última de todas, a perderia na morte, e toda sua história seria nada, deixaria até de ser história, para todo o sempre. Assim, justifica-se todo o absurdo que Shaw põe no discurso final de Lilith, bem como a teoria de Bergman, afirmando que o élan vital é capaz de superar todos os obstáculos, talvez até a morte — como se pudéssemos crer que qualquer desenvolvimento social ou biológico em nosso planeta pudesse protelar a senilidade do sol ou anular a segunda lei da termodinâmica.