Um Dinossauro no Século XX: Uma Introdução à Teologia de C.S.Lewis.

“Uma coisa eu sei: eu daria muito para ouvir qualquer ateniense antigo, mesmo um estúpido, falando sobre a tragédia grega.”   C.S.Lewis, De Descriptione Temporum

Como disse Louis Berkhof, “[…] a teologia é o conhecimento sistematizado de Deus de quem, por meio de quem, e para quem sāo todas as coisas.” Abordar a teologia de Lewis é especialmente complicado porque nunca foi seu objetivo ser classificado como um teólogo, diríamos, profissional. Em todos os seus livros publicados nāo há nem de longe uma sistematização clara e evidente das doutrinas cristās a respeito de Deus. Por outro lado nāo podemos negar o fato de sua obra apologética e literária  ter assumido um caráter especificamente teológico, e que, para todos os efeitos, também  nāo pode ser coincidência que uma grande quantidade dos teólogos modernos como N.T.Wite, Alister MacGrath, John Piper, William Lane Craig e Russell Shedd terem assumido publicamente uma grande influência de C.S.Lewis. Nāo há como negar, o impacto da sua obra sobre a teologia moderna é consideravelmente grande. Não obstante, podemos nos perguntar qual seria a contribuição de um crítico literário à teologia, e por que seria, afinal de contas, uma contribuição realmente relevante. O fato de ter influenciado algumas personalidades da teologia ocidental por si só certamente não bastaria. Então, sugiro que perguntemos qual relevância teria e qual contribuição daria um homem, por mais estúpido que fosse, que alegasse ter vivido entre os principais pensadores primitivos. 


Em uma épica palestra em Cambridge intitulada De Descriptione Temporum, Lewis faz uma afirmação no mínimo curiosa, ele diz já em tom de conclusão: “Eu leio como nativo um texto que vocês devem ler como estrangeiros.” O que ele queria dizer, é claro, é que à aquela altura do campeonato ele tinha um acúmulo muito grande de informação em relação à história e filosofia da literatura primitiva ocidental. O que seus alunos deveriam levar em consideração era, sobretudo, que mesmo que viesse a falhar como crítico, deveria ser relevante a sua contribuição como um espécime, ou um Neanderthal, como ele diria,

“E se o Neanderthaler pudesse falar, então, embora sua técnica de palestras possa deixar muito a desejar, não deveríamos quase certamente aprender com ele algumas coisas sobre sobre as quais o melhor antropólogo moderno nunca poderia ter nos contado? “


Tendo em vista que boa parte dos esforços teológicos do século XX consistiu em uma aproximação da filosofia, teologia e literatura primitiva, acreditamos que a contribuição de Lewis seja realmente grande e relevante. Enquanto a grande maioria dos teóricos da primeira metade do século XX se preocupava em reinterpretar a literatura cristā primitiva, a guerra se adensava cada vez mais, a BBC de Londres passou então a transmitir as palestras de um certo professor de Oxford cuja idade nāo parecia ser tão antiga quanto seu discurso e cujos sermões, mesmo em meio ao crescente esnobismo-cronológico dentro da teologia, pareciam remontar à cosmovisāo medieval e à teologia patristica grega. A óbvia diferença entre Lewis e o Neanderthal que ele sugere em Discripitione Temporum é que Lewis é um espécime que sabe manejar bem as modernas técnicas de palestras. Pois o incrível paradoxo com que todos os leitores se deparam ao ler Lewis é o evidente contraste em se deparar com um verdadeiro Dinossauro da epistemologia religiosa que conseguiu tocar no âmago intelectual do homem moderno.

[…] 

O Contexto teológico do século XX:

“Em relação ao “norte” e ao “sul” um homem tem, eu entendo, somente uma preocupação: evitá-los e manter-se na Estrada Principal. Não devemos “dar ouvidos ao gigante, seja por ele ser considerado por demais sábio ou por demais tolo.” Não fomos feitos nem para sermos homens cerebrais, nem viscerais, mas Homens. Não feras, nem anjos, mas Homens – criaturas ao mesmo tempo racionais e animais.”

Clive Staples Lewis nasceu em Belfast, na irlanda do norte. O contexto religioso em que viveu foi marcado pelo forte protestantismo de Ulster e um conturbado impacto da Orange Order (Ordem Laranja). Mas tarde esse impacto lançaria luz em O Regresso do Peregrino, principalmente na criaçāo de Puritania, cidade na qual nasceu e foi criado o protagonista do romance. Mas assim como John de O Regresso saiu de sua terra natal e se deparou com diferentes filosofias, C.S.Lewis saiu de Belfast e acabou por encontrar outros conflitos além daqueles entre católicos e protestantes. Quando já era um escritor cristāo de nome e professor universitário nas décadas de 30 e 40, o cenário religioso era tāo conturbado quanto a guerra que se adensava cada vez mais entre o Eixo e os Aliados. O liberalismo teológico de Schleiermacher do século 19, já estava bem maduro no século 20 e dando seus frutos tanto nas grandes universidades da Europa quanto nos seminários da próspera América do Norte. Era uma ideologia moldada pelo iluminismo secular e caracterizada pelo modernismo. A nova crítica da bíblia e dos primeiros escritos cristāos buscavam encontrar um grande filósofo e mestre da moral em um carpinteiro do século I. Eles estavam imprecionados com a beleza mitológica do Novo Testamento, mas estavam na busca do Jesus histórico e nāo do redentivo do qual Paulo baseou seus escritos. Os teólogos liberais, como ficaram conhecidos, se esforçavam por moldar a fé cristã à ciência e suas novas demandas culturais. Alister MacGrath resume bem a questāo da seguinte forma:

“O movimento, associado inicialmente ao grande teólogo berlinense F.D.E. Schleiermacher, alcançou seu sucesso mais relevante sob o comando de A.B. Ritschl e Adolf von Harnack. O protestantismo liberal clássico surgiu em resposta a uma crescente percepção de que a fé e a teologias cristãs exigiam reconstrução à luz do conhecimento, das atitudes e dos valores modernos. Para usar a linguagem de Niebuhr, os “ideais mais excelentes” do século 19 pareciam muitos distintos daqueles do século 16.” [Alister MacGrath, A Revolução Protestante. Pg. 311.].

 O liberalismo era, sobretudo, uma tendência nas grandes universidades. O curriculum acadêmico de seus principais defensores e o discurso persuasivo e cheio de retóricas fizeram do movimento um prato cheio nāo só para os novos estudantes, mas também para experimentados professores. O movimento também teve inúmeras reações negativas, tanto na academia quanto na Igreja. Era uma questāo de principios para muitos que a religiāo cristā estivesse descendo uma escada tāo ingreme rumo à mera compreensāo secular da existência humana e uma análisa estritamente crítica da Bíblia Sagrada. Por uma questāo de honra e dogma surgiram, principalmemte na América do Norte, os fundamentalistas. Aqui há perigo de generalizaçāo, pois históricamente, usando mais uma vez as palavras do próprio MacGrath, ” o fundamentalismo é apresentado como uma forma irracional, sem crítica e altamente dogmática de protestantismo[…]” mas, é “mais bem entendido como uma reaçāo específica a desenvolvimentos ocorridos no mundo dos E.U.A. do início do século 20, e, por isso, em um sentido da palavra, ele é totalmente moderno.” [Pg.383]. O fundamentalismo é, portanto, uma reaçāo dogmática moderna à um liberalismo – “por natureza menos definível” – rescentemente nascido em uma alemanha iluminista secular. Enquanto o liberalismo teológico seguia o fluxo e as demandas da cultura, sem praticamente nehum compromisso com a tradiçāo cristã, o fundamentalismo se enveredou pelo caminho contrário, embora mais uma vez tenha que ser dito que muitos teólogos conservadores assumiram uma postura equilibrada em relaçāo a cultura. Mesmo de dentro do fundamentalismo podia se ouvir um tom de voz menos afetado pelo calor da “batalha retórica”.  Esse foi o cenário teológico predominante no século XX – embora tenha surgido várias outras controvércias significativas. Foi nessa época de extremos tanto na Guerra quanto nas universidade que Lewis escreveu e proferiu a maior parte de seus sermões e palestras. Com olhar tanto de um erudito da crítica literária quanto de um pró-eficiente historiador intelectual, ele percebeu logo a falta de “faro literário” dos liberais e o espirito demasiado rígido e dogmático de alguns fundamentalistas. A BBC de Londres passou entāo a transmitir as palestras de um professor de Oxford que todos sabiam que se tratava de um Irlândes relativamente novo, mas cujo discurso teológico mas se parecia ao de um verdadeiro Dinossauro intectual avesso às demandas da modernidade e que nāo estava disposto a pender para qualquer lado da balança: Nem o norte e nem o Sul.

O Mito tornado fato: Uma visāo alternativa à crítica bíbllià liberal e ao literalismo fundamentalista.

”Não é necessário ser um crítico bíblico profissional, mas um simples historiador da literatura, para saber que os Evangelhos não devem ser interpretados como lenda” Kevin J. Vanhozer.

  Nāo poucas vezes encontramos aqui e ali algum conservador radical dizendo e escrevendo o quanto Lewis era liberal em sua teologia e extramente crítico em seu bíblicismo. Neste tópico veremos como esse tipo de análise é rápida e simplista ao definir a visāo do autor exatamente nestes termos. Antes de passarmos à verdadeira posiçāo de Lewis, faremos uma breve síntese da crítica bíblica de sua época e em qual nível C.S.Lewis realmente se aproximou dessa escola de pensamento.

É certo que nāo podemos começar por outro lugar se nāo no Novo Testamento, que sempre foi uma das maiores influências do Ocidente, sendo o grande pilar da Idade Média e o centro das discussões da Reforma Protestante. Com o advento do Iluminismo no século 18  e o avanço dos métodos de crítica literária, porém, deu-se início a um novo método de interpretação bíblica que ficou conhecido como abordagem histórico-crítica. Para os novos teólogos e eruditos, era importante aplicar à Bíblia os mesmos métodos de crítica que se usava nos outros tipos de literatura. Os métodos foram revolucionários e, dentre eles, se destacou a Formgeschichte – ou ”crítica das formas” como também foi comumente traduzida. Sua introdução primeiramente foi usada no Antigo Testamento, mas não demorou muito para lançar luz aos estudos do Novo Testamento também. A crítica das formas se destacava principalmente na abordagem dos três primeiros evangelhos, também conhecidos como sinóticos. Partia de um princípio básico de que o conteúdo original fora alterado e a ele acrescentado elementos de outras culturas. Assim, esses novos teólogos críticos chegaram a conclusāo de que no contexto do NT havia tanto o misticismo egipicio quanto a especulação filosófica helenista, bem como exerceram grande influencia sobre seu conteúdo as religiões de mistério e os ritos religiosos romanos . Desta forma, por meio de uma abordagem linguística refinada, a crítica das formas, aliada ao Religionsgeschichtliche (”escola da história das religiões”), se propunha a identificar aquilo que fora arbitrariamente introduzido e chegar a descobrir o conteúdo original dos textos. Começava a busca pelo Jesus histórico. 

  Esses métodos já eram muito influente na Univ. de Oxford aonde Lewis passava a maior parte de seu tempo, ou aprendendo ou lecionando. Se os Evangelhos fossem só mitologia, então, para o acurado gosto literário de Lewis, eram uma mitologia muito “pobre” e pouco criativa; se fosse destituido de suas principais doutrinas, nāo seria algo de maior relevancia. Na famosa e longa conversa, na noite entre os dias 19 e 20 de setembro de 1931, com J.R.R.Tolkien e “Hugo” Dyson, Lewis viu o seu pensamento ser confrontado com um argumento que afinal derrubara todo o seu ceticismo em relaçāo às doutrinas bíblicas. Tolkien apontou para o fato de que presença de aspectos semelhantes em todas as mitologias (como a morte e a ressurreiçāo de um Deus encarnado) indicavam um aspecto em comum no mínimo interessante entre elas. Quando vestígios de semelhança entre estes mitos e as narrativas feitas pelos evangelistas sāo verificados como tendo ocorrido na história e no tempo, em uma cultura e lugar específico, nāo sāo indícios de mais uma mitologia entre outras. A forma jornalística como os Evangelhos sinóticos sāo narrados, os números de provas em favor da autênticidade dos documentos e a grande quantidade de testemunhas oculares dāo conta nāo de que sāo mais uma lenda entre outras, mas a verdade para a qual os mitos primitivos apontavam. Dentro de uma cultura e geografia específica, em um determinado ponto da história, o mito tornou-se fato. Aquela noite foi marcante na vida e na conversāo de C.S.Lewis. Era uma jogada final que iria por todo o seu pensamento em xeque. O NT agora ganhava um peso absolutamente maior. Em God in the Dock ele se expressa da seguinte forma:

“Agora, como historiador literário, estou perfeitamente convencido de que, nāo importa o que mais os evangelhos possam ser, eles nāo sāo lendas. Eu li muitas lendas (mitos) na vida e tenho firme clareza de que não são o mesmo tipo de coisa. Eles nāo sāo suficientemente artistico para ser lendas. De um ponto de vista imaginativo, eles sāo pesados, nāo funcionam… A maior parte da vida de Jesus é totalmente desconhecida para nós… e ninguém que estivesse inventando uma lenda permitiria que isso acontecesse.”  [God in the Dock pg. 158]

  Lewis, com sua vasta experiência em história e crítica literária, logo após uma leitura atenta do Evangelho de S. Joāo no grego bíblico, converteu-se e se tornou um dos grandes apologistas cristāos de sua época. Como ele mesmo se descreveu em sua auto-biografia: “um pagāo convertido, vivendo no meio de puritanos apóstatas”. A infidável luta por um padrāo moral “aceitável, fora explicado pela doutrina da Queda; seu desepero em relaçāo ao seu estado moral nāo fora consolado pelas explicações freudianas, mas tāo somente pela doutrina da Redençāo; sua insáciavel busca pela excelência só fora compreendida através da doutrina da Santificaçāo; a maior parte de seus questionamentos filosóficos tanto de origem lógica quanto imaginativa foram supridos apenas na compreensāo da Santissíma Trindade, a porta aberta para além da personalidade. Sua visāo de mundo agora era outra e, a despeito da revoluçāo liberal dentro da teologia, sua experiência como historiador e crítico literário lhe conferiram uma visāo mais acadêmica das ousadas alegações dos críticos bíblicos de sua época que, através de novos métodos, tentavam desacreditar a velha ortodoxia. Para Lewis fatava faro literário para a maioria desses teólogos. Tornou-se mesmo difícil conceber que tais críticos fossem visto como os grandes responsaveis pelas “magnificas pesquisas” em torno do Novo Testamento: “Estes homens me pedem para acreditar que podem ler entre as linhas dos textos antigos, a evidência é sua óbvia incapacidade de ler (em qualquer sentido que valha a pena discutir) as próprias linhas. Eles afirmam ver sementes de samambaias, mas nāo conseguem ver um Elefante de dez metros em plena luz do dia.” Este é o trecho de um ensaio que fora escrito já no final de sua vida. A forma discontraida e irreverente deixa escapar que este nāo é mais um artigo acadêmico do Lewis erudito, que à aquela altura já era um escritor respeitado, mas ideias que surgiram primeiramente “com a liberdade que vem após o jantar”. Só depois, em 11 de maio de 1959, é que o ensaio fora lido em Westcott House, Cambridge. A forma “a vontade” com a qual ele escreve, no que diz respeito à sua teologia, sempre é muito evidênte quando o assunto é levado para o campo da história primitiva, filosofia ou, e ainda mais, crítica literária. Os teólogos liberais teriam de aguentar os famosos balidos do Dinossauro de Oxford. Duas críticas em Fern-Seed and Elelephants sāo especialmente relevantes: 

  1. Na crítica das formas, utilizada pelos teólogos liberais, evidência-se uma rapida resoluçāo em rejeitar tudo aquilo que é milagroso. Mas esta, segundo Lewis, nāo é algo que eles encontram no texto: “O cânone “Se milagroso, Então não-histórico” é um pressuposto que  eles trazem para o estudo dos textos, não uma questāo  que eles aprenderam com ele. Se alguém está falando de autoridade, a autoridade unida de todos os críticos bíblicos do mundo nāo conta aqui para nada. Nisto falam simplesmente como homens; Homens obviamente influenciados pelo espírito da época em que cresceram e, talvez, insuficientemente críticos.”
  2. Outro erro que aos ouvidos e olhos do Neanderthal parece espantoso é que, apesar da longa e vasta experiência com o NT, a distância em tempo dos críticos em relaçāo aos documentos do NT, tornam uma reconstruçāo do tipo que eles alegam fazer “quase sobre-humana para compensar o fato de que eles estão em toda parte enfrentando costumes, linguagem, características de raça, características de classe, um fundo religioso , hábitos de composição e suposições básicas, q

    ue nenhum estudo jamais permitirá que qualquer homem agora vivo saiba com tanta certeza e intimidade.” Além disso, Lewis era incisivo ao reprovar o esnobismo cronológico do críticos bíblicos. Para ele soa demasiadamente presunçāo a alegaçāo de que os discursos de Jesus foi muito mal interpretado pelas suas testemunhas oculares e que só foi realmente compreendido por uma escola de pensamento surgida no século 19.

É no mínimo ambiciosa a tentativa de chegar tāo próximo da Verdade, e no mínimo estranho e  curioso o fato de alegarem terem, de fato, chego… para entāo reduzi-la a um formato que se enquadre perfeitamente ao século XX. A previsāo máxima de Lewis a esses teólogos liberais que se casaram com o Espirito da Época é que no fim… amanheçam viuvus.

Essa, contudo, é apenas uma parte da moeda, já no final do ensaio Lewis deixa claro: “nāo somos fundamentalistas”.  Ele atribuiria bastante autoridade ao AT e NT, inclusive mais do que à Tradiçāo e à Igreja. Para ele, assim como para todos os cristāos de todos os tempos “esses escritos sāo “santos”, “inspirados”, ou, como diz o apóstolo Paulo, “os oráculos de Deus”. Somente a inerrância, historicidade e literalidade completa da Bíblia, estritamente enfatizada pelo fundamentalismo, era visto por ele com certo receio. Além do fato de serem, os fundamentalistas, um movimemto altamente dogmático e, por essência, modernista. Sua maior preocupaçāo no entanto, era a alegaçāo de que tudo na bíblia deveria ser interpretado de forma literal e histórica. Assim, em carta a uma correspondente, ele comenta:

“Minha posiçāo nāo é fundamentalista, se fundamentalisno significa aceitar, como ponto de fé inicial, a proposiçāo de que “Toda afirmaçāo na Bíblia é absolutamente verdadeira nos sentidos literal e histórico”. De imediato, isso não funcionaria no caso das parábolas. Na mesma medida, todo senso e entendimento geral de gêneros literários que proibiria qualquer pessoa de considerar as parábolas como afirmações históricas, levados muito pouco além, nos obrigariam a distinguir entre (1.) livros como os de Atos ou o relato do reino de Davi que, por toda parte, formam harmonicamente uma história e uma geografia conhecidas, além de genealogias (2.) livros como o de Ester, Jonas ou Jó que, ao contrário, lidam com personagens desconhecidos que vivem em períodos nāo especificados, e proclamam, sem rodeios, sua condiçāo de ficçāo sagrada.” [Carta a Jenet Wwis, 5 de out. 1955]

Em certo sentido, ele nāo se considerava, a despeito da sua posiçāo, longe da velha ortodoxia. Ele mesmo diz que afirma assim seu pensamento “do mesmo modo que fez Sāo Jerônimo quando diz que Moisés descrevera a criaçāo “como um poeta popular” (como diríamos, miticamente); ou como Calvino quando colocou em dúvida se a história de Jó seria história ou ficçāo.” [Lendo os Salmos, pg. 118]. É preciso esclarecer, apenas a nivel de introduçāo, que quando Lewis diz que algumas histórias do AT sāo mitológicas ele nāo está, de forma alguma, se aliando à “crítica das formas” muito comum aos teólogos liberais. O conceito que Lewis, assim como Tolkien, dá a um mito “nāo é simplesmente de História mal interpretada (como pensava Evêmero), nem a ilusāo diabólica (como acreditavam alguns dos patriarcas), nem mentira sacerdotal (como julgavam os fiósofos iluministas), mas, na melhor das hipóteses, um vislumbre real, embora mais desfocado, da verdade divina que penetra a imaginaçāo humana.” Os mitos do AT, no entanto, sāo absolutamente distintos dos mitos pagāos, pois sāo “a mitologia escolhida por Deus para ser o veículo das primeiras verdades sagradas, o primeiro passo num processo que finaliza no Novo Testamento, no qual a verdade se torna completamente histórica.” [Milagres, pg. 203/204] Essa sua ideia de revelaçāo progressiva – do mito à história – nāo teve, realmente, muito apoio ortodoxo ao longo da história e é quase, dentro da teologia, uma peculiaridade sua. Esse posicionamento em relação à Bíblia causou um estranhamento dos teólogos mais conservadores. Algumas vezes ele de fato parecia transparecer uma influência neo-ortodoxa. Ele chega mesmo a dizer em uma de suas muitas correspondências: “A verdadeira Palavra de Deus é o próprio Cristo, e nāo a Bíblia.” Para Lewis, a Palavra nāo se emoudura dentro do Livro Sagrado, mas se revela através dele. Há quem diga ser esse um saldo a pagar com um dos grandes protagonistas da teologia moderna. Porém, em carta a Corbin Scott, Lewis diz: ” Nunca li Barth, pelo menos nāo que eu me lembre”. Nāo há mesmo como chegarmos a uma especifica doutrina das Escrituras no seu pensamento. Nem há material para isso. O mais significativo em sua obra, e aquilo de melhor que nós podemos apreender de sua concepçāo do que sāo as Escrituras, é o modo como a essência do evangelho deve penetrar em nossa mente. Um dos grandes prejuizos da “batalha retórica” entre fundamentalistas e liberais foi ver muitos dos teólogos perderem e deixarem escapar a essência e o verdadeiro “poder do Evangelho”. Muitas críticas podem e devem ser feitas a C.S.Lewis, mas como Kevin Vanhoezer escreveu ,” Olhar “pontualmente” para a concepçāo das Escrituras de Lewis em vez de considerá-la em sua abrangência é uma estratégia tāo equivocada quanto a tendência dos críticos que veem as Escrituras dessa mesma maneira. Isso porque Lewis estava menos interessado em formular uma doutrina das Escrituras do que em tentar ver, através delas, as verdades e o mistério da fé […]” e, diz Vanhoozer, “ler as escrituras com fé nāo significa reempacotar o discurso de primeira ordem da Bíblia nos termos de teóricos de segunda ordem, mas receber “uma extensāo imaginativa” de nosso ser quando as palavras e os mundos do texto bíblico adentram nosso mundo com inspiraçāo e encantamento. Tole, lege!: pegue, leia (com sensibilidadw literária) e seja transformado.” [Kevin J. Vanhoozer, Além do mundo Magico de Nárnia, cap. Sobre as Escrituras. Pg. 105-106]

Uma Crítica Pertinente:

“A tendência tāo comum de fazer das doutrinas afirmações infalíveis, através das quais descrevemos e circunscrevemos Deus, é a mesma tendência que leva alguns a pegar um pedaço de madeira, colocá-lo sobre um altar e dizer: “Você é o meu Deus”.

[Justo Gonzales, Uma Breve História das Doutrinas Cristãs]

 Como dizia, Lewis nāo era um cara dos extremos e, nem tampouco, dos rótulos sobre-carregados de conceitos modernos disso e daquilo. A falta de posicionamento em um dos lados da batalha causou certa tensāo em alguns dos teólogos de sua época. Cornelius Van Til, por exemplo, chega a sugerir que Lewis rompe bruscamente com a mensagem central da fé cristā: “Em  Lewis  não  vejo  nenhuma  percepção  da  minha  necessidade  de aceitar  a  expiação  substitutiva  pelos  meus  pecados  na  cruz.  Onde  está  “Cristo, e  ele  crucificado”?  Onde  está  “Cristo  e  sua  ressurreição”?  Onde  está o homem natural,  “morto  em  delitos  e  pecados”  (Ef.  2:1)?”.  O incômodo de Van Til vem justamente de um texto em que Lewis se refere à  obra da Redençāo em Cristo Jesus como sendo “a mensagem central da fé cristã”, enquanto as explicações de como isso acontece nāo seja tāo central assim. Lewis diz o seguinte:

“A  mensagem  central  da  crença  cristã,”  diz ele,  “de  algum  modo acertou  nossas  contas  com  Deus  e  nos  deu  a  possibilidade  de  começar  de novo.  As  teorias  sobre  como  isso  ocorreu  são  outro  assunto.  Várias  teorias foram  formuladas  a  esse  respeito;  o  que  todos  os  cristãos  têm  em  comum  é  a crença  na  eficácia  dessa  obra.  Vou  lhes  dizer  o  que  penso  do  assunto.  Toda pessoa  de  juízo  sabe  que,  quando  estamos  cansados  e  famintos,  um  prato  de comida  nos  fará  bem…  Minha  própria  igreja,  a  Anglicana,  não  propõe nenhuma  delas  como  a  única  teoria  correta.  A  Igreja  Romana  vai  um  pouco mais  longe.  Creio,  porém,  que  todas  concordam  que  a  coisa  em  si  é infinitamente  mais  importante  que  qualquer  explicação  produzida  pelos teólogos.” [Mero Cristianismo]

Até compreendo a preocupação deste que foi um dos grandes nomes da apologética reformada mas, uma vez mais eu insisto. Enquanto os fundamentalistas estavam preocupados com o ceticismo dos liberais e estes por sua vez incomodados com a rigidez dogmática daqueles, a contribuição de Lewis é de alguém que está de fora do calor da batalha expondo os pontos de vista histórico e literário e fazendo fumaça principalmente em relaçāo à aqueles pontos comum a todos os crentes de todos os tempos. O caso da Expiaçāo Substutiva é um ótimo exemplo e Van Til nāo poderia ter escolhido outro melhor. Às vezes o que se tem por óbvio pode muito bem ser o que, na verdade, está mais próximo de nossas pressuposições modernas. Entāo rotulamos todo o resto de ignorância, ingenuidade e, como no caso presente, heresia. É preciso um pouco de compreensāo histórica antes de irmos direto ao ponto. A expiaçāo substutiva por exemplo- comecemos pelo própria deixa de Van Til – só foi ressaltada na Baixa Idade-Média em um livro de Anselmo de Cantuária (1033-1109), no qual ele questionava a razāo de Deus ter se tornado homem – “cur Deus homo?”. Anselmo procurou entender o amor de Deus por uma humanidade pecadora através da obra salvifica de Cristo. Assim, Jesus morre para pagar o preço que só alguém que fosse definitivamente homem poderia pagar; mas era um preço infinito que só um ser infinito poderia arcar, logo também era preciso que fosse Deus. Anselmo nāo sabia, mas estava sendo o precursor de uma doutrina que mais tarde ganharia o nome de “teoria jurídica”, por tratar a redençāo em termos de dívida e pagamento.     Décadas mais tarde, entretanto, surgiria Pedro Abelardo (1079-1142) que entendeu a redençāo como um exemplo. Para Abelardo nāo havia nenhuma dívida a ser paga, tratava-se, isto sim, de uma “liçāo de amor inesquecível”. Esse modo de entender a Redençāo provocou uma acolarada controvérsia em que Bernado de Claraval (1090-1153) toma a dianteira da oposiçāo. Para Bernardo a posiçāo de Abelardo era pura heresia e deixava de lado aspectos importantes da obra de Cristo. Logo estava sendo convocado um sínodo e em 1941 a Igreja condenou as doutrinas de Abelardo. No entanto, o conclave que condenou as heresias de Abelardo, nāo endossou de forma alguma a teoria jurídica de Anselmo. E é precisamente isso que nos leva diretamente a uma terceira via, a que ficou estabelecida no concílio e que predominou com maior força na patrística. Essa teoria foi melhor entendida em termos de batalha e vitória. Assim, no sacrifício da Cruz, Jesus esmagou a cabeça da Serpente, adquirindo nāo só a vitória sobre Satanás, mas a salvaçāo para todos os crentes. O preço nāo era pago, como no caso da expiaçāo substutiva, a Deus. Era preciso comprar a humanidade do “príncipe do presente século”. A morte de Cristo pagou esse débito, sua ressurreiçāo concretizou a vitória. Essa teoria, normalmente identificada como Christus Victor, teve sua maior expressão nos escritores gregos patrióticos, principalmente Irineu e Orígenes.  

Vale lembrar que teoria jurídica de Anselmo foi resgatada já no final da Idade Média e foi endossada pela maioria dos reformadores. Mas só no final do século XIX e começo do XX é que, no calor da batalha entre fundamentalistas e liberais, foi adotada por vários corpos eclesiásticos na América do norte. Contudo, a teoria patrística Christus Victor também teve o seu espaço principalmente através de Gustaf Aulén em seu impactante artigo originalmente publicado na Alemanha, sob o título: Zeitschrift für systematische teologia (1930).

Em Cristianismo Puro e Simples Lewis tem em mente todas essas controvérsias, nāo se tratava de teorias rejeitadas pela cristandade como era o caso da teoria de Abelardo ressucitada pelos liberais, era um debate sólido e que remontava ao período patrístico. Lewis, em benefício e sua tese, Mero Cristianismo, se abstém de uma posiçāo pessoal a respeito e se concentra no essêncial. Cornelius Van Til parece nāo ter levado em conta o peso da controvérsia, parece querer impor uma posiçāo específica e relegar todas as outras, ou ainda uma posição nāo declarada, ao nível do liberalismo teológico, infelizmemte acabou por medir a ortodoxia do tamanho das demandas dogmáticas do século XX. Justo Gonzales define e conclui bem o contexto da ascensão da doutrina da expiação substutiva e a rejeição à tudo quanto fosse diferente:

“[…] Assim, quando surgiu o fundamentalismo, um dos cinco fundamentos que supostamente denotariam a ortodoxia cristã era precisamente a doutrina da expiaçāo substutiva. Diversas organizações eclesiásticas, em especial nos Estados Unidos,declararam-se a favor dessa posição e rejeitaram todas as outras opções como heréticas. Por isso, muitos de nós aceitam  como interpretação “tradicional” da obra de Cristo alguma versão da teoria de Anselmo – mesmo que a história mostre que tal teoria tenha surgido apenas na Baixa Idade Média.”   [Justo Gonzales, Uma breve História das Doutrinas Cristãs. pg.151]  

Os teólogos nunca foram unânimes sobre diversos pontos das doutrinas cristãs – como no caso das teorias para explicar a Redençāo por meio de Cristo -, mas sempre houve um fio condutor sobre o qual os verdadeiros mestres sempre concordaram. A coisa fica ainda mais fácil de se compreender, uma vez que assimilamos o contexto do qual Van Til tira o texto de Lewis para aplicar a sua crítica. Trata-se do que ficou conhecido por Mero Cristianismo, uma das imagens mais aclamadas e pedagógicas da obra de C.S.Lewis. Imaginemos um edíficio, muito bonito e esbelto diga-se de passagem, além de ter um forte alicerce e uma incrível arquitetura, dessas que nāo se desvanece com o tempo. O interior desse edíficil é composto de uma  porta de entrada e um saguāo bem acomodado.  Há também uma série de comôdos subsequentes que se espalham por vários andares acima do saguão e da porta de entrada. O edíficil representa o cistianismo; o saguāo e a porta de entrada representa aquilo que é basilar na história das doutrinas cristās, como por exemplo as doutrinas expostas no credo apostólico; os diferentes comôdos dos andares acima representam as diferentes tradições acerca de algumas doutrinas basilares, tradições essas que só se estabeleceram após passarem pelo crivo da hermêneutica-bíblica e da história eclesiástica e que deixaram para trás outras interpretações que nāo passaram pelo mesmo crivo. Obviamente que o viajante que adentra ao prédio deve passar pela porta central e se informar no saguāo. Algumas pessoas vāo demorar mais por ali, se informando sobre todos os detalhes da fundaçāo do edifícil, sua arquitetura e o propósito para o qual fora criado. Essa é a atitude mais recomendada a qualquer um, mas ninguém vai querer ficar muito tempo no saguāo, apesar de alguns demorarem mais que outros ninguém entra em um prédio e se hospeda na recepçāo, é preciso fazer uma escolha dentro dos limites daquela estrutura especifica.                                                   Voltando ao ponto da doutrina da Redençāo e as diferentes formas de entender o modo pelo qual ela ocorre, Lewis à aquela altura já deveria ter uma convicçāo própria e seus escritos podem nos orientar muito a esse respeito. Em O Leāo, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, quando Aslan morre no lugar de Edmundo nāo é para saciar a ira de Deus. O saldo que Aslan paga é à Feiticeira de quem Edmundo, após ceder aos seus próprios desejos e às tentações, era prisioneiro por direito. Aslan morre no lugar de Edmundo, o liberta, ressucita e perpetua a vitória sobre a Feiticeira, acaba, por fim, com o inverno de Nárnia. Talvez essa fosse a forma como Lewis entendia a doutrina da expiaçāo, nāo dá pra bater o martelo. O Leāo, a Feiticeira e o Guarda-Roupa era só uma crônica, nāo um tratado teológico. De qualquer forma, no contexto da crítica de Van Til – naquele momento em particular – ele estava como que na funçāo de um sindico que informa tudo sobre a construçāo do prédio e deixa a critério do viajante a escolha que só ele pode tomar. O único alerta que ele faz é que nāo percamos o essêncial.         

A chave  hermenêutica  para compreensão da visão de mundo de C.S.Lewis: 

“Com quase toda certeza, Deus não está no tempo. A vida dele não consiste de momentos que são seguidos por outros momentos.”  – C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.

Nāo deve ser novidade para nenhum leitor médio de C.S.Lewis que boa parte de suas influências vem da Bíblia Sagrada e autores primitivos e medievais, principalmente os textos de Paulo, os clássicos gregos e os grandes poetas e teólogos da Baixa e Alta Idade Média. Mas o que poucos realmente conhecem sāo o tamanho e o peso da harmonia feita por Lewis entre as doutrinas bíblias e as filosóficas dentro de um escopo histórico e literário. Na sua concepçāo de tempo e espaço baseada nos textos de Boécio e Platāo e sob o prisma bíblico de Paulo, isso fica ainda mais evidênte. Nesta parte da introduçāo nossa tarefa principal será analisar a conturbada concíliaçāo da doutrina teológica da onisciência enraizada no Novo Testamento com a doutrina filosófica do espaço-tempo com origem em Platāo e Aristóteles. Sobretudo ressaltar o quanto essa conciliaçāo é importante para a compreensāo da teologia de C.S.Lewis.

O filósofo Platāo entendia o tempo como “uma imagem móbil da eternidade”, já Aristóteles como a medida e a duraçāo de tudo que está em movimento. Mas a relaçāo entre tempo, espaço e eternidade levando em consideraçāo a perspectiva da onisciência divina e, tendo em mente tanto Platāo quanto Aristóteles, foi melhor exposta por Boécio em seu clássico A Consolaçāo da Filosofia. Para resumir bem, Boécio faz uma clara distinçāo entre a eternidade divina e a perpetuidade temporal. Para Boécio essa distinçāo é importante, pois marca bem a forma como podemos compreender o espaço de atuaçāo da Providência e o campo de visāo da Onisciência. A forma como nós olhamos o mundo está sempre sujeita a transitoriedade típica de alguém que está sujeito ao tempo, assim para Boécio: “Numa vida vivida dia a dia só se pode viver o momento presente, transitório e fugaz. Portanto, aquele que está sujeito à lei do tempo, mesmo se, como pensava Aristóteles, sempre começa e jamais cessa de ser e cuja vida se desenrola segundo o ritmo de um tempo ilimitado, nāo pode no entanto ser concebido como um ser eterno.”  Para Deus é diferente, pois, ainda seguindo os mesmos parâmetros, “a eternidade é a posse inteira e perfeita de uma vida ilimitada”. Essa eternidade inteira e perfeita, é exclusiva “[d]Aquele que nos observa do alto, que perdura eternamente, que tem a onisciência de todas as coisas.” Logo, o olhar divino se sobrepõe, e muito, à nossa pespectiva da realidade. Boécio resume bem a questāo da seguinte forma:

“Eis por que, se quisermos definir corretamente as coisas, diremos como Platāo que Deus com certeza é eterno, mas o mundo apenas perpétuo. Portanto, uma vez que todo juizo abarca segundo sua própria natureza aquilo que lhe é submetido e que Deus tem uma natureza sempre eterna e presente, também seu saber, que ultrapassa todo o movimento do tempo, permanece imutável em seu presente e, abarcando os espaços infinitos do passado e do futuro, considera a todos os acontecimentos como se eles já estivessem se desenrolando.” [A Consolaçāo da Filosofia, pg.152]

No pensamento e no arcabouço da cosmovisāo de Lewis esse insith boeciano é central. Para ele, tanto quanto para Boécio, a distinçāo daquilo que é perpétuo, porém temporal, em relaçāo à aquilo que é imutável, e logo eterno, é uma questāo chave em sua teologia. Em uma das mais belas análises da comovisāo medieval, A Imagem Descartada, Lewis faz uma síntese de De Consolatione Philosophiae e já no final da resenha, quando nos remete à questão da perpetuidade temporal e da eternidade divina, seu pensamento e convicçāo quase se confude com a análise do texto de Boécio:

“Deus é eterno, nāo perpétuo. Estritamente falando, ele nunca prevê; ele simplesmente vê. Seu “futuro” é apenas uma área, e para nós uma área especial, do Seu Agora infinito. Ele vê (em vez de lembrar) seus atos de ontem porque o ontem ainda está ai para Ele; Ele vê (em vez de prever) os seus atos futuros, porque Ele já está no amanhã.” [A Imagem Descartada, pg. 95]

Essa perspectiva tempo-eternidade nāo é, contudo, uma unanimedade nos dias atuais como praticamente o foi na Idade Média. O principal nome de uma oposiçāo filosófica e teológicamente coerente é, sem dúvida, o de Willian Lane Craig. Craig defende abertamente a temporalidade de Deus, a inferência básica de seu argumento é que Deus nāo pode se relacionar com o universo criado e ainda assim permanecer atemporal, porque, nas palavras do próprio Craig , “ao criar o universo, Deus sofre no mínimo uma mudança extrínseca — uma mudança relacional. No instante da criação, ele entra numa nova relação, na qual ele antes não estava porque não havia “antes”. É o primeiro instante do tempo. E, no primeiro instante do tempo, Deus entra na nova relação de sustentar o universo ou, pelo menos, de coexistir com o universo, relação na qual ele não estava antes. Assim, em virtude dessa mudança relacional extrínseca, Deus seria trazido para dentro do tempo no momento da criação.” [Read more: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/deus-tempo-e-eternidade#ixzz4jQNSpkNs ] Porém, a discussāo nāo só ultrapassa os limites bíblicos e teológicos, como chega a depender necessária e cientificamente de questões fisícas e meta-fisícas, principalmente no que diz respeito à teoria dinâmica do tempo, que é a base da temporalidade divina e que pressupõe uma relaçāo aonde passado, presente e futuro assumem caracteristicas objetivas da realidade, assim “o passado não existe mais; o futuro não existe ainda e é pura potencialidade; e as coisas vêm a existir no presente e deixam de existir à medida que passam, de sorte que o processo temporal é dinâmico e real”. Agostinho, já no século IV rejeitaria tal argumento, para ele, a disntiçāo entre passado, presente e futuro é uma caracteristica própria da consciência humana e de carater absolutamente subjetivo. Os pensamentos de Santo Agostinho atrelado aos de Sāo Tomas de Aquino formam os primeiros pilares de uma teologia-filosófica que pressupõe a atemporalidade de Deus. O embate, como reiteradamente disse, depente sustancialmente de questões metafisícas, ainda utilizando as palavras do professor Craig, “a teoria da eternidade divina que se adota permanecerá ou cairá dependentemente da decisão que for tomada com relação à teoria dinâmica do tempo versus a teoria estática do tempo. Quem adota a teoria dinâmica do tempo deverá acreditar na temporalidade divina. Para quem adota a teoria estática do tempo, então, a visão mais plausível será a atemporalidade divina.”

De qualquer forma, Lewis é um escritor essêncialmente medieval e a influência de Agostinho, Boécio e Aquino estāo para ele como a influência de Duns Scotus e Newton está para o professor Craig. A teologia tradicional, contudo, normalmente assume uma posiçāo de atemporalidade. Embora a interpretaçāo bíblica a esse respeito possa dar suporte a uma ou a outra posiçāo, a atemporalidade permance essêncial na estrutura dos atributos imutaveis de Deus. Além do que, há que se entender bem a diferença entre o “agora infito” de Deus e o transitório presente humano, na aparente distância que às vezes parece distoa na relaçāo entres as diferentes doutrinas que nos sāo tāo preciosas e ganham espaço significativamente grande nas Escrituras Sagradas. Principalmente quando requerem uma relaçāo entre algo no tempo e outro vindo da eternidade. A revelaçāo bíblica, por exemplo, pode usar uma linguagem específicamente temporal para algo que, para ser análisado teológicamente, demandaria uma perspectiva absolutamente transcêndente ao tempo. Nāo que ela esteja errada mas, pressupondo a atemporalidade, pode variar em relaçāo à perspectiva. Deste modo, podemos ler o relato de Lucas em Atos 02 sobre a conversāo de muitas pessoas, especificamente após a pregaçāo de Pedro, e, ao mesmo tempo, lermos Paulo escrevendo o capítulo 01 de sua epístola Aos Efésios e nos ensinando que nossa salvaçāo já fora concretizada desde antes da fundaçāo do mundo. A primeira, por vir de um ponto de vista histórico, implica em uma compreensāo temporal; a seguda, partindo de um pressuposto revelacional e teológico, requer uma abordagem nāo restrita e atemporal. Lewis faz aplicações diferentes, porém similares, tendo sempre em mente esse pilar. Iremos analisar agora alguns exemplos desse tipo de aplicaçāo na sua obra.

  1. Livre-arbítrio e Graça –

Falar sobre Livre-arbítrio e Graça é sempre muito díficil, isso porque há um cem número de debates que círculam o tema desde os primórdios do cristianismo. Estou certo que Lewis tinha todos esses debates bem vivos em sua cabeça, no entanto estou ainda mais convicto da sua indiferença em participar ou tomar qualquer tipo de partido nessa acalorada discusāo. Isso nāo ficou muito claro para muitos dos mais ávidos leitores de C.S.Lewis, seus leitores calvinistas acham que ele tem um pé no semi-pelagianismo e por isso rejeitam-no neste ponto; já os fãs de confissāo sinergista, nāo poucas vezes, e com muito orgulho, o colocam ao lado de teólogos como Erasmo de Hoterdan, Jacobus Arminium e John Wesley. Ambos os tipos de leitores perderam uma chave importante para compreender seu pensamemto teológico: a questāo tempo-eternidade.  Nos dois ultimos capítulos de The Great Divorce, Lewis demontra o quanto esse pressuposto é importante tanto para assimilarmos a Soberania Divina, quanto para compreendermos a Liberdade Humana.

Em The Great Divorce o tema é abordado em um contexto mais doutrinário, além de filosófico. Nesta obra C.S.Lewis se vale uma vez mais de seu incomparável talento para fábulas e alegorias. A trama se passa em um sonho, aonde o narrador-escritor se vê em uma viagem inacreditável, atravessando Céu e Inferno. Nesta viagem inesperada C.S.Lewis encontra-se com George Mcdonald, pastor presbiteriano e escritor escocês do século XIX, que tornar-se seu guia, além de mestre. Juntos eles tiram conclusões significativas sobre tudo o que veem, em especial trataremos aqui do diálogo fictício elaborado por Lewis que encontra-se nos dois últimos capítulos deste mesmo livro. Ali Lewis desenvolve de forma bastante profunda o seu pensamento acerca da Liberdade e do Tempo e estabelece uma relação fundamental entre os dois temas. Lewis parte do pressuposto platônico de que Deus é eterno e nāo se condiciona ao tempo por Ele criado, como já vimos, esta questāo foi bem assímilada por Boécio na baixa idade média, que deu, sobretudo, um viés cristāo à teoria platônica. O ponto de partida de Lewis é o mesmo de Boécio. Deus é atemporal e nós não, logo as postulações feitas a partir do ponto de vista divino não são as mesmas que se enquadram em nosso limite de tempo e espaço.

 Portanto, o livre arbítrio e a soberania divina ganham dentro desse panorama uma explicação no minímo interessante: para nós, que estamos no tempo e sujeito às suas peculiaridades, torna-se seguro de se dizer sobre a difícil questão da liberdade, mesmo com respeito a salvação ou condenação eterna: “A escolha dos caminhos está à sua frente. Não há nada restrito. Qualquer homem pode escolher a morte eterna e os que fizerem essa opção vão tê-la” Isso, levando em consideração a nossa percepção temporal, nesse sentido, a Liberdade só pode ser vista ou percebida através do Tempo, que funciona como uma espécie de lente: “uma cena de momentos que se seguem uns aos outros e você, em cada momento, fazendo alguma escolha que poderia ter sido diferente”. Agora, “se estiver tentando saltar para a eternidade, se estiver tentando ver como será”, correrá o risco de eliminar a Liberdade como experiência, “considere a doutrina da Predestinaçāo que mostra (de fato) que a realidade nāo está aguardando um futuro em que possa tornar-se real. Mas, correndo o risco de anular a Liberdade.”

Eis o motivo que tornou Lewis indiferente às questões teológicas que envolviam o Livre-arbítrio em detrimento da Soberania, ou a Soberania em detrimento do Livre-arbítrio. Ele sempre considerou ambas as doutrinas verdadeiras, vistas, porém, da perspectiva correta. Talvez ele visse essa aparente contradição entre teoria e pratica, como Ranson – o personagem principal de sua Trilogia Cósmica. 

Em Perelandra, Elwin Ranson se vê diante da responsabilidade de enfrentar o Não-Homem – aquele que instigava a Queda no Gênesis mitológico de Vênus. Ranson nota que enfrentar o Não-Homem lhe parecia literalmente impossível, mas de alguma forma ele sabia que iria ser feito. Isso já tinha acontecido antes com ele, e “o mesmo acontecia agora […] poderia implorar, chorar ou se rebelar, poderia amaldiçoar ou adorar, cantar como um mártir ou blasfemar como um demônio. Não fazia a menor diferença. […] O ato futuro já estava ali, fixo e inalterável, como se ele já o tivesse executado. […] Talvez fosse possível dizer que o poder da escolha tinha sido simplesmente afastado e substituído por um destino inflexível. Por outro lado, talvez se pudesse dizer que Ranson tinha sido libertado […] para uma liberdade inexpugnável. Por mais que se esforçasse, Ranson não conseguia ver nenhuma diferença entre essas duas formulações.” 

 Essa é provavelmente a forma como o próprio Lewis via o assunto. Ranson carregava muitos traços de seu criador. Talvez pudesse dizer o mesmo de si próprio quando disse que para Ranson enfim “A predestinação e a liberdade eram aparentemente idênticas.” e que  “Ele já não conseguia ver o menor significado nos muitos argumentos que ouvira sobre o assunto.” 

      2. Oraçāo e Providência:

Toda essa discussão começa em uma das grandes enfases de Lewis em desconstruir o Naturalismo de sua época através de diversos e sólidos argumentos que podem ser encontrados na sua obra máxima de apologética cristã, Milagres. Como sugere o título, a afirmação central do livro é que milagres existem. Após expor seus argumentos, Lewis propõe um apêndice, aonde parte do pressuposto tanto da existência de Deus, como da ocorrência de milagres. Sobre Providências Especiais é o título do apêndice que visa, entre outras coisas, estabelecer um ponto de contato entre Providência e Oração.

Não sem razão, às vezes somos cobertos por uma nuvem de ceticismo que põe em dúvida a eficacia de nossas orações quando estas parecem requerer fundamentos temporalmente impossíveis. Lewis entrelaça seu argumento ao pressuposto que já vimos, tempo-eternidade é a chave para compreendermos o mistério que envolve a relação entre Deus e o homem, entre oração e providência. C.S.Lewis nos fornece uma imagem incrivelmente didática. Imaginemos que eu encontre uma folha e nela uma linha preta ondulada que segue de uma extremidade à outra e que eu, deliberadamente, resolva escrever outras linhas – vermelha, por exemplo. Vamos imaginar então que a primeira linha, que já estava escrita, seja consciente. Mas ela não tem consciência ao longo de todo o seu trajeto, mas em cada ponto de seu percurso. Ela, de fato, movimenta-se da esquerda para a direita e retém o ponto A apenas como memória ao alcançar B, incapaz de tornar-se consciente de D até deixar C. Vamos atribuir a essa linha preta livre-arbítrio, de forma que foi ela mesmo que escolheu sua forma ondulada especial e a direção que está a seguir. Apesar de ela não saber o que fazer em F até deixar o ponto E, eu, que estou com o papel na mão e sei todo o seu percurso, escrevo as linhas vermelhas de modo a considerar todo o trajeto da linha preta, de forma que ela irá sempre encontrar com minhas linhas vermelhas ao longo de sua trajetória. Em resumidas palavras, essa é a forma como Lewis enxerga o cenário da atuação da Providência, a linha preta representa uma criatura dotada de livre-arbítrio, as vermelhas os acontecimentos materiais e o autor do desenho representa Deus. Digamos que “uma pessoa ore para que, ao atingir o ponto N, encontre as linhas vermelhas arranjadas de certa forma ao redor de si”, mas, sua oração é de tal forma complexa que requer que as linhas vermelhas se arranjem em partes bem diferentes e distantes do papel, a linha preta iria chamar essas partes do papel de “o momento antes do meu nascimento” e o “momento depois de minha morte”. Alguém poderia objetar que tal oração não pode ser satisfeita, já que inclui períodos em que a linha preta ainda não existia. Não do ponto de vista de quem elaborou todo o complexo do desenho, “pois todo o seu curso esteve visível à minha frente desde o momento em que olhei para o papel, e suas solicitações para o ponto N estão entre as coisas que considerei ao decidir o padrão total.” Mas essa é apenas uma imagem que nos introduz à doutrina propriamente dita. Aprendemos que as coisas que cooperam para o nosso bem emanam de Deus e não se limitam ao nosso ponto de vista do tempo. Uma grande parte de nossas orações, se forem devidamente analisadas, exigem uma intervenção de Deus que antecede não só o nosso ato de fé como muitas vezes o nosso próprio nascimento, noutras os fundamentos precisariam ser lançados antes da fundação do mundo. Embora numa sucessão temporal pareça impossível, para Deus, que olha da eternidade, tanto quem faz a oração quanto o milagre ao qual pede já estavam tão presentes na criação do mundo como estão agora e estarão daqui a um milhão de anos. Deste modo “ao meio-dia podemo-nos tornar causas parciais de um evento ocorrido às 10 da manhã”.

Esta cadeia de raciocino pode nos sugerir, contudo, que nossas orações possuem poderes mágicos tão grandes que poderíamos alterar passado e futuro. Segundo Lewis, essa é uma peça na qual a nossa imaginação está sujeita, “ela nos fará a pergunta: ‘Então, se eu deixar de orar, Deus poderá voltar atrás e alterar o que já aconteceu?’. Não!” responde Lewis, “o evento já aconteceu e uma das causas é o fato de você está fazendo tais perguntas, em vez de orar.” Ou ainda: ” ‘se eu começar a orar, Deus pode retroceder e alterar o que já aconteceu?’ ” no que a resposta de Lewis permanece a mesma, “Não!” diz ele, “o acontecimento já ocorreu, e uma de suas causas é a sua oração de agora”.

Há ainda uma outra possibilidade que nossa pretensa imaginaçāo pode levantar. Será que nós podemos orar pela segurança de uma pessoa que sabemos ter morrido no dia anterior? A resposta de Lewis permanece negativa frente as falacias imaginativas, “o evento conhecido”, diz ele, “explica a vontade de Deus”, tal oração seria, ainda usando as palavras de Lewis, “um pecado contra o dever de submissão à vontade conhecida de Deus”

A eficácia da oraçāo do crente e a firme e resoluta esperanca que ele pode depositar na Providência Divina é, sem sombra de dúvidas, um ponto alto no pensamento lewisiano. Mas alguém pode se perguntar qual a probabilidade de um evento ter ou nāo ocorrido através de nossas orações, Lewis nāo dá resposta a esse tipo de pergunta, o que pode ser desanimador aos seus leitores continuistas, “essa impossibilidade de comprovaçāo empírica é um imperativo espiritual”, diz Lewis. “O homem que soubesse empiricamente que determinado acontecimento tenha ocorrido em resposta à sua oraçāo se sentiria um mágico. Ficaria com a cabeça virada, e seu coraçāo se corromperia.” Devemos acreditar, pois as Escrituras assim nos ensinam, “que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”, como C.S.Lewis conclui, “o cristāo nunca deve perguntar se este ou aquele acontecimento ocorreu em resposta a uma ororaçāomas deve acreditar que todos os eventos, sem exceçāo, sāo respostas à oraçāo, no sentido de que, se atendidas ou recusadas, as orações de todos os aflitos, bem como suas necessidades, sāo todas levadas em consideraçāo por Deus.”

Os Fundamentos da Teologia Filosófica em C.S.Lewis:

“O problema, como muitos pensadores (C.S.Lewis por exemplo) têm visto, é que o naturalismo, ou o naturalismo evolucionista, parece conduzir a um ceticismo fundo e penetrante. Ele leva à conclusão de que nossa cognição ou faculdades produtoras de crenças – memória, percepção, insight lógico, etc. – são duvidosas e não se pode confiar nelas para produzir uma preponderância de crenças verdadeiras sobre crenças falsas.” – Alvim Platinga, Evolução versus Naturalismo. 

 Antes de Lewis se tornar um teólogo por vocação, ele foi um filósofo por profissão. Poucos realmente sabem, mas chegou a lecionar filosofia em Oxford, aonde também tinha adquirido uma graduação na mesma área, tanto quanto em História Primitiva e Literatura Inglesa. Quando, na década de 30 do século XX, se converteu do  ateísmo ao cristianismo, um verdadeiro reavivamento intelectual ocorreu em sua mente, como ele explica em Surpreendido pela Alegria:

“Assim como os ossos secos se batiam e se juntavam naquele tenebroso vale de Ezequiel, agora também um teorema filosófico, cerebralmente acalentado, começava a agitar-se e erguer-se, lançando longe a mortalha e pondo-se de pé para tornar-se presença viva.Eu não mais teria permissão para brincar de filosofia.”

Cerca de 10 anos após a sua conversão escreveria aquele que seria um dos grandes clássicos de teologia filosófica do século XX, Milagres causaria um verdadeiro transtorno intelectual na cabeça dos grandes filósofos naturalistas da época, a partir dali não havia mais como desprezar os argumentos de Lewis na condição de mera teologia popular, sabia-se desde então que um grande nome da apologética cristã havia surgido, seu nome era Clive Staples Lewis, seus amigos o chamavam de Jack.

 O argumento da razão.

O argumento utilizado em Milagres desferiu um golpe contundente no âmago intelectual do Naturalismo moderno, a filosofia em voga na primeira metade do século XX. Segundo Lewis argumenta, se o naturalismo se verificar verdadeiro, não pode-se ter confiança na capacidade de raciocínio; se já não se pode confiar no raciocínio, toda argumentação de cunho racional que visa a credibilidade do naturalismo cai por terra; logo, o naturalismo não tem condições de se sustentar racionalmente.

Lewis já havia escrito outros livros de apologética antes de Milagres, também escreveu outros após ele, mas nenhum dos outros livros teve pretensão mais filosófica do que Milagres, era filosofia teológica pura e simples.
Nāo era, como o nome possa querer sugestionar, uma defesa histórica da ocorrências de alguns milagres professados, por exemplo, por alguns cristãos. O tipo de investigação produzida pela pesquisa histórica não tem, por si só, capacidade de validar ou rejeitar esse tipo de ocorrência, pois, como diz Lewis em tom de introdução, “se forem impossíveis, não há evidência capaz de nos convencer. Se forem possíveis, mas extremamente improváveis, somente uma evidência matematicamente  comprovada nos convencerá. E como a História jamais apresenta esse grau de evidência para acontecimento algum, ela nunca poderá nos convencer de que um milagre de fato ocorreu.” Só podemos começar a trabalhar com evidências históricas se pudermos conceber intrinsecamente a ocorrência, e só podermos chegar a conceber tal coisa por métodos filosóficos. Ou nós temos boas evidências filosóficas para acreditar no Sobrenatural ou atribuiremos toda e qualquer ocorrência a aspectos naturais, nesse caso, em algum nível, estaremos adotando uma posição naturalista. Como conclui Lewis, “a questão filosófica precisa, portanto, ser considerada em primeiro lugar.”

Parte do papel de Lewis no terceiro e mais contundente capítulo de seu livro, é desacreditar, através de um convincente processo de raciocínio lógico, a própria confiança que filósofos naturalistas tão ostensivamente creditam em seus argumentos. Segundo demonstra Lewis, a pretensão naturalista em enxergar todas as coisas como fenômenos meramente naturais, invalida a possibilidade de raciocínio. Se nosso raciocínio está em uma relação de Causa e Efeito, como o estāo todas as relações naturais, nāo há condições de provarmos sua veracidade. 

A forma mais clara de vermos que não podemos extrair capacidade de raciocínio em um sistema de causa e efeito é analisando os dois sentidos que Lewis atribui a palavra “porque”. No exemplo: “A mulher morreu porque estava com problemas de saúde”, temos uma relação causal. Já, “a mulher morreu porque se divorciou do marido” (pois, sabemos que já sofria ameaças de morte), indica uma relação de antecedente e consequentemente. Logicamente, o fato da mulher ter se divorciado não é a causa natural de seu assassinato, mas a razão que nos leva a crer que foi assassinada. No primeiro caso um médico poderia basear seu laudo em uma relação causal, no segundo, somente um Sherlok Holmes baseado em um processo de raciocínio  lógico é que poderia chegar a tal conclusão. ” A primeira relação indica uma ralação dinâmica entre acontecimentos e ‘estados de coisas’. A segunda, uma relação lógica entre crenças ou asserções”. Como Lewis habilmente se expressa:

“Uma cadeia de raciocínio não tem nenhum  valor como meio de se chegar à verdade, a menos que cada uma de suas etapas esteja ligada com o que veio antes na relação antecedente-consequente. Se nosso B não suceder logicamente ao nosso A, pensamos em vão. Se o que pensamos no nosso raciocínio deve ser verdade, então a resposta correta à pergunta: ‘Por que você pensa isso?’ deve começar com o porque da relação antecedente-consequente.”

Se todos os atos, no entanto, estão atrelados a um sistema natural de causa e efeito, nossa conclusão até pode nos levar a um resultado verdadeiro, mas nunca saberemos racionalmente o porque de sua verdade.

Em uma discussão, como exemplifica Lewis, “a simples existência de causas para uma crença é popularmente tratada como se houvesse a suposição de que ela fosse infundada, e o modo mais comum de por em dúvida as opiniões de alguém é explicá-las de modo causal: “Você diz isso porque (Causa e Efeito) é um capitalista ou um hipocondríaco ou um homem comum ou só uma mulher.” 

 Como diz com propriedade o Dr. Jay Richard, “o naturalismo não contém tais ingredientes como a mente, proposições, percepções e relações lógicas; ele contém partículas elementares, forças atraentes, reações químicas, campos quânticos etc., em um sistema fechado e impessoal de causa e efeito.”
  Lewis chega mesmo a concluir que dentro dessa “descrição completa de nosso comportamento mental”, caracterizada pela cosmovisāo naturalista, não encontramos lugar “para os atos de conhecimento ou de reflexão dos quais depende o valor de nosso pensamento como meio de chegar à verdade.”

No entanto, é quase certo que filósofos naturalistas apelem a Darwin neste ponto. O pressuposto básico de um naturalismo estrito, tanto na época de Lewis quanto nos dias atuais, é que houve uma época em que não existia, de fato, tal coisa como a razão. Nesse sentido, o pensamento racional ou inferência deve ter sido uma consequência da seleção natural. No entanto, segundo argumenta Lewis, a seleção natural opera unicamente por meio de processos aleatórios com vista a aperfeiçoamentos, ou eliminando aquilo que é prejudicial à sobrevivência ou por meio de derivação genética. Contudo, apesar desse processo favorecer  a sobrevivência, em nada se preocupam com razões lógicas e dedutíveis. Logo, todo o processo de raciocínio torna-se obsoleto: “A relação entre resposta é estímulo difere em grande escala daquela existente entre conhecimento e verdade conhecida.”

Argumento Evolucionário Antinaturalista

Alvim Platinga, um dos grandes nomes da filosofia contemporânea, foi o primeiro grande filósofo a sofisticar o argumento usado por Lewis para provar que o naturalismo é incompatível com a teoria da evolução darwiniana. “Não se pode” diz Platinga,  “racionalmente aceitar ambos: evolução e naturalismo; não se pode ser um naturalista evolucionista.”
 O argumento de Platinga causou um abalo significativo dentro da academia, se assumirmos uma conjunção do naturalismo com evolucionismo temos uma auto-contradiçāo.

01- Segundo o naturalismo evolucionista, as ocorrências cerebrais ocorrem em um sistema fechado de causas e efeitos físicos;
02- todos os comportamentos, ainda segundo naturalismo evolucionista, sāo aleatoriamente adaptativos;
03- logo, temos que: seleção natural não produz capacidade cognitiva confiável;
04- segue-se de 03 que, o naturalismo evolucionista não se importa com a verdade e a solidez da crença por trás de determinado comportamento, apenas se preocupa se ele gera sobrevivência e reprodução.
05- portanto, não se pode sustentar racionalmente uma conjunção tal qual o naturalismo evolucionista.

Nas palavras do próprio Platinga:

 “O naturalismo evolucionista, […] é auto-refutante, auto-destrutivo e atira no seu próprio pé. Portanto você não pode racionalmente aceita-lo. Por todos estes argumentos apresentados, ele pode ser verdadeiro; mas é irracional sustentá-lo. Assim o argumento não é um argumento para a falsidade do naturalismo evolucionista; ao invés disso, para a conclusão de que não se pode racionalmente acreditar naquela proposição. A evolução, portanto, longe de sustentar o naturalismo, é incompatível com ele, nesse sentido que você não pode racionalmente acreditar em ambos.”

Platinga classifica a conjunção auto-destrutiva naturalista evolucionista como a “Dúvida de Darwin”, isso porque, em correspondência com William Graham, o próprio Darwin admitiu que “a dúvida terrível sempre surge quando as convicções da mente do homem, desenvolvidas a partir da mente de animais inferiores, são, de algum modo, valiosas ou completamente dignas de confiança.”
Talvez seja interessante lembrar que G.K.Chesterton , em sua típica abordagem irônica de temas complexos, sugere que o pensamento cético deve mesmo permanecer em dúvida com relação à capacidade cognitiva. Em seu clássico Ortodoxia, Chesterton diz: “Se você é simplesmente um cético,  você deve, mais cedo ou mais tarde, se fazer a pergunta, […] ‘Porque não deve a boa lógica ser tão enganosa quanto à lógica ruim? Ambas não são movimentos no cérebro de um macaco perplexo?’ O jovem cético diz ‘ Eu tenho o direito de pensar por mim mesmo.’ Porém, o velho cético, o cético completo, diz ‘Eu não tenho o direito de pensar por mim mesmo. Afinal, não tenho o direito de pensar'”

Além da racionalidade: Uma Razão Sobrenatural.

Mas, por mais persuasivo que o argumento da Razão possa parecer, não chegamos ainda a um Deus, estritamente falando. E a proposta de Lewis é tanto filosófica quanto teológica, é, antes de tudo, uma proposta apologética que se dispõe a lançar as bases racionais da existência de Deus. Nesse sentido, para usar as palavras do filósofo Peter S. Williams, “C.S.Lewis transformou a conclusão do argumento antinaturalista da razão na primeira premissa de um argumento para a existência de uma razão transcendente no coração da realidade.”

Se podemos concluir que a razão não está relacionada dentro dos processos naturais de causa e efeito, devemos nos perguntar de onde ela se originou. Pois agora chegamos a mesma conclusão com relação a razão a que o naturalistas chegaram com relação ao todo completo da natureza e, poderíamos dizer, bem próximo da conclusão a que os sobrenaturalistas chegaram na concepção de Deus. Conforme Angus J. Menuge argumenta, se a personalidade humana não pode surgir a partir da matéria impessoal do universo, sua origem certamente tem que ser de um ser sobrenatural; e sob a pena de regresso, este Ser deverá ser suposto como um ser… necessário.” J. P. Moreland se expressa em uma mesma direção: A mente parece ser uma característica básica do cosmos e sua origem em um nível finito de pessoas é mais bem explicada, ao postular uma Mente fundamental, que concebeu e concedeu aos seres, mentes finitas.”

Lewis também chega à conclusão de que o fato da capacidade de raciocínio não estar ligado a uma relação causal da natureza não que dizer não esteja ligado a nada mais, “porque” como ele conclui “nāo é a dependência em si, mas a dependência em relação ao irracional que enfraquece a credibilidade do pensamento.” É mais provável que tenha mesmo existido um Ser necessário como expressou Menuge e fundamental como disse Moreland. De fato, Lewis estabelece uma relação lógica muito convincente a partir do argumento da razão até a existência de um Deus. Para ele, a razão está em uma relação de assimetria com a natureza, está para aquilo que é natural, como um Rei está para seus súditos, é a centelha divina em um incursão estrategicamente planejada:

“Quando as condições físicas do cérebro dominam meus pensamentos, elas só produzem desordem. Meu cérebro, porém,  não deixa de ser cérebro quando é dominado pela Razão, nem minhas emoções e sensações perdem suas características. A Razão preserva e fortalece todo o meu sistema psicológico e físico, enquanto esse sistema todo, ao rebelar-se contra a Razão,destrói tanto a Razão quanto a si mesmo. […] A Razão sobrenatural não penetra meu ser natural como uma arma. Assemelha-se mais a um feixe de luz que ilumina ou a um princípio de organização que se unifica e desenvolve. Toda a nossa concepção de natureza “invadida” (como por um inimigo estranho) estava errada. Quando de fato examinamos essa invasão, vemos que se parece mais com a chegada de um Rei entre seus súditos, ou um tratador de elefantes visitando seu animal. O elefante pode agir de forma selvagem, a Natureza pode rebelar-se, mas, ao se observar o que acontece quando a Natureza obedece, é quase impossível deixar de  concluir que é próprio da “natureza” dela o ser submissa. Tudo acontece como se ela tivesse sido designada exatamente para aquele papel.”

Elizabeth Anscombe:

Como reiteradamente disse, o argumento da Razão estabelecido por Lewis em Milagres, causou um abalo significativo dentro de diferentes círculos acadêmicos. Porém, nem todos os viram com bons olhos e, não sem razão, muitas críticas se levantaram.

 Lewis, na época da publicação de Milagres, era membro sênior – uma espécie de presidente – de uma sociedade estudantil dentro da universidade de Oxford. O fórum, que recebeu o nome de Clube Socrático, fora fundado principalmente para discutir questões filosóficas e apologéticas como a existência de Deus ou a divindade de Cristo. Com a publicação de uma obra como Milagres era óbvio que Lewis levaria suas idéias centrais para serem discutidas no clube. No dia 02 de fevereiro de 1948, surgiu uma crítica pertinente em uma das reuniões, a jovem filósofa Elizabeth Anscombe argumentou, em tom de censura, que o argumento usado por Lewis para expressar a irracionalidade do naturalismo continha um problema lógico.

Anscombe concordava com Lewis que o naturalismo era insustentável, no entanto, como salientou Alister MacGrath em sua biografia de C.S.Lewis,

 “Sua principal preocupação dizia respeito à insistência de Lewis de que o naturalismo era irracional. Anscombe  sustentou a idéia inteiramente justa – que provavelmente ocorrerá a qualquer pessoa culta que venha a ler o capítulo original de Lewis – de que nem todas as causas naturais são irracionais.”

O problema consiste em um aparente atalho lógico usado por Lewis na primeira edição de seu livro. Se todo o processo racional é causado por fatores naturais em uma relação de causa e efeito, como pressupõe os naturalistas, não significa necessariamente que a validade do processo esteja realmente suspensa. De fato, para uma argumentação mais sólida e convincente, era preciso provar que tais e quais características naturalistas minavam a credibilidade do processo de raciocínio.

 Lewis levou em consideração as críticas de Anscombe e reformulou o capítulo inteiro, exceto os seis primeiros parágrafos. O título mudou de “The Self-Contradiction of the Naturalist” [ A autocontradiçāo do naturalista], para “The Cardinal Difficulty of Naturalism” [A principal dificuldade do naturalismo]. E, nas primeiras linhas do sétimo parágrafo, percebe-se uma abordagem mais cautelosa, após postular uma diferença relativa entre materialismo e naturalismo, ele segue dizendo que o naturalismo “menospreza nossos processos de raciocínio ou pelo menos reduz a credibilidade deles a um nível tão modesto que já não pode mais suportar o próprio Naturalismo.” Eu disse que ele começa com uma abordagem mais cautelosa, mas todo o restante do capítulo segue em uma linha lógica muito robusta, endossada por grandes filósofos tanto da sua época quanto quanto contemporâneos nosso. E é essa abordagem que nós analisamos a alguns parágrafos atrás e é a ela que milhões de leitores tem acesso em diferentes traduções.

Porém, a crítica de Anscombe causou um abalo significativo no modo como Lewis entendia o caráter apologético de suas obras, ele tinha plena consciência de que não tinha tempo para manter um ministério apologético amplamente sólido em todos os aspectos. Sua especialidade continuava sendo literatura medieval e não filosofia contemporânea. MacGrath lista alguns problemas que podem ter levado Lewis a um tênue afastamento de uma abordagem estritamente apologética, embora tenha que ser dito que ele não deixou de produzir apologética séria, mas houve, de fato, um afastamento ou, como estou certo de que tenha sido, apenas uma mudança de caráter. Em 1955, em carta a Carl F. H. Henry (1913-2003), um líder evangélico o qual vamos abordar em um tópico posterior, Lewis declina de um convite para escrever alguns artigos de cunho apologético, Lewis explica a Henry que já havia feito o possível “no que se referia a ataques frontais” e que agora ele preferiria abordar temas apologéticos de forma imaginativa ou, para usar sua própria expressão, por meios de “ficção e símbolo.”
 É apenas a partir de 1950, dois anos após o confronto com Anscombe, que Lewis começa a publicar As Crônicas de Nárnia, como diz com Alister MacGrath,

“Podemos perfeitamente ver Nárnia como a elaboração imaginativa do núcleo de idéias filosóficas e teológicas que Lewis havia desenvolvido desde meados da década de 1930, expressa de maneira imaginativa em vez de racional. As Crônicas de Nárnia expressam na forma de uma história os mesmos argumentos teológicos e filosóficos apresentados em Milagres. A ficção se torna o meio de permitir que os leitores contemplem – mais que isso, desfrutem – a visão da realidade que Lewis havia apresentado em suas obras mais apologéticas.”